Inteligência Artificial : como pode a IA minar a ação climática ?

por Ana Sofia Cabeleira, Membro da Comissão Executiva do PEV

Já não a estranhamos, ou talvez sim. É bem evidente que a comunicação vem, nos últimos tempos, perdendo autenticidade pelo facilitismo com que a inteligência artificial (IA) se entranha nas mais variadas áreas com a pretensão de substituir tarefas intelectuais. Da publicidade às artes, da educação ao jornalismo, dos serviços à comunicação institucional.

Importa por isso refletir sobre o peso da uniformização da imagem e da linguagem – pese embora o reconhecimento generalizado sobre o cariz inovador da IA – considerando que é simplista a criação de conteúdos amplamente partilhados no mundo digital, arcaicamente mimetizados em milhares de publicações a que não são alheias falhas, imprecisões e até uma marca gráfica que vamos aprendendo a identificar. Um conteúdo que nos é imposto sob o desígnio dos ímpetos do algoritmo, a um ritmo vertiginoso, como um manto imenso e opaco prestes a cobrir todo o processo inventivo, como se, sob o comando do novo e brilhante intelecto, ficássemos agora dispensados de pensar, criar e evoluir. E quando se opta por comunicar valores democráticos e mensagens políticas partindo desta imensa fragilidade é a própria liberdade democrática que corre o risco de corromper.

Apesar de se apresentar como uma ferramenta acessível e de grande aplicação, o recurso à IA não tem de ser uma sentença para a humanidade nem para o humanismo. É uma opção.
A IA é, porém, um risco para ambos, se teimarmos em ignorar o preço demasiado elevado para o planeta e os seus recursos, e consequentemente para a integridade individual, a força do trabalho, a dignidade e qualidade de vida de quem deles depende. E não dependeremos todos nós: um trilionário e todos os demais?

Apesar de recente, esta tecnologia já surtiu um falhanço monumental. A proliferação de mega centros de dados veio a revelar enormes fragilidades no sistema energético dos EUA, cujas big-tech lidam com o fim do sonho da supremacia da IA, à medida que colapsam as infraestruturas elétricas face à insustentabilidade da exigência de consumos dos servidores e sistemas de armazenamento. Neste contexto não será pois de estranhar que a população norte-americana esteja a pagar cara esta fatura: os preços da eletricidade subiram 76% na maior rede elétrica do país operada pela PJM, e isto se somam custos e riscos face a apagões.

Para melhor se perceber a dimensão destes impactos, importa referir que um centro de dados consome, em média, tanta eletricidade como 100 mil casas. Contudo as mais recentes infraestruturas exigirão 20 vezes mais energia, o que é insustentável.

Portugal e Espanha estão por este motivo na mira dos investidores, quando tudo se resume a números. De acordo com o estudo da consultora McKinsey, a Península Ibérica está posicionada na linha da frente para liderar a computação de hiperescala, equivalente a 500 mil milhões de euros por ano até 2030.

Como empurrar os impactos para o sul da Europa, e a que custo? O mote: renováveis.
O estudo aponta para a necessidade da Europa triplicar a sua capacidade de computação até 2030 e para tal a energia é um fator crítico. A península ibérica, considerados os excedentes de energia renovável, por um lado, e por outro os valores da eletricidade industrial em Portugal (abaixo da média europeia), surge como o alvo para a instalação dos novos projetos de computação de grande escala. Mas como ignorar a fragilidade do nosso sistema energético perante o apagão que afetou a península ibérica, precisamente no momento em que operava com uma quota muito elevada de fontes renováveis (superior a 75-80%)?

Por outro lado, Portugal está na mira da IA por poder ser a porta de entrada, através da ligação a Sines, e a empresas como a gigante “verde” Start Campus, ligando a Europa à América do Sul, através dos grandes cabos submarinos internacionais de alta capacidade.

“Todos estes dados devem preocupar-nos, independentemente
da localização geográfica destes megaprojectos.
Falamos de impactos globais que constituem um enorme
travão na necessária engrenagem pela ação e defesa climáticas. “

Estes mega projetos serão certamente vendidos em nome da “energia verde” e da “sustentabilidade assente em renováveis”, quiçá invocando o “superior interesse público” que invariavelmente faz prosperar o interesse privado a custo da alienação do bem público (quase sempre monopolizando recursos naturais como a água, e de que este caso não é exceção).

Os impactos dos centros de dados e do rápido crescimento da IA não são apenas sobre os níveis de emissões de gases com efeitos de estufa ou sobre as ondas de calor que provocam num raio de a 10 km do seu local de implantação. É essencial aferir os impactos diretos na terra, na água e no clima, considerando todas as cadeias de suprimentos, incluindo “centros de dados, chips, geração de eletricidade, sistemas de refrigeração, captação de água, ocupação do solo, minerais críticos e resíduos eletrónicos” imensuráveis, como alerta um relatório da ONU.

A nível global, a emissão de carbono associada ao aumento do consumo de eletricidade pelos centros de dados corresponde, em média, a 399 milhões de toneladas de CO2, exigindo 6,7 biliões de árvores para ser compensada. Em 2030, é estimado que o consumo de água associado aos centros de dados venha corresponder ao equivalente do consumo anual de 1,3 mil milhões de habitantes. Entre 2025 e 2050, a produção elétrica mundial deverá por este motivo, aumentar em 85%, sendo que em 2050 a IA deverá consumir 8% do total da energia produzida a nível global.

Se acrescentarmos que as criptomoedas, com cada vez maior utilização a nível mundial, e que requerem igualmente astronómicas quantidades de eletricidade para serem geradas de forma segura, estamos de facto perante o problema global de grande escala.

Todos estes dados devem preocupar-nos, independentemente da localização geográfica destes megaprojectos. Falamos de impactos globais que constituem um enorme travão na necessária engrenagem pela ação e defesa climáticas. Por isso, enquanto ecologistas, é nosso dever pugnar pela transparência sobre os impactos socioambientais da IA, dos consumos, produção e segurança energéticas, a efetiva avaliação do real consumo de água, o impacto sobre o clima e o solo, os riscos associados ao crescente problema associado à deposição e descarte de lixo eletrónico mas também a cibersegurança. Ao tomarmos decisões políticas que visam concentrar uma enorme riqueza do lado das grandes corporações, não é difícil prever o desinvestimento em toda a linha dos serviços públicos e nos seus recursos humanos. À medida que a IA substitui procedimentos e postos de trabalho, não podemos esperar senão o agravar da precariedade laboral e intelectual.

A IA não é neutra. Ignorar os seus riscos presentes e para o futuro é arriscar um salto no abismo perante uma infraestrutura de poder que se apresenta sorrateira nas nossas vidas sem que nos tivéssemos munido alguma vez, e até hoje, de mecanismos democráticos capazes de a travar quando, ou agora que, é ténue a fronteira entre o que vem para nos servir e o que impõe o nosso servilismo.

(Os artigos de Opinião aqui publicados  são da responsabilidade dos seus autores e podem não reflectir as posições da ADAL).

A Quinta da Torre de Cima: um projeto de futuro, respeitando o passado

por Duarte Morgado

Na freguesia de Bucelas, junto à aldeia pitoresca do Freixial, existe uma quinta, entre outras, que nos remete para uma história, cujos indícios arqueológicos, nos faz viajar até à Baixa Idade Média, mais concretamente até ao século XIV.

Hoje, entre pinheiros mansos, e com 50 hectares, este pedaço de terra integrou os 170 hectares que perfaziam a antiga Quinta da Torre, entretanto fraccionada em três partes: a de Baixo, a do Meio e a de Cima. Na sua paisagem natural são mais de 25 os tipos de árvores, e possui a fauna regular que nos apresenta javalis, coelhos bravos, raposa, muitas aves diversas, e muitos mais outros animais.

A história da propriedade desta parcela de céu na terra, funde-se com a biografia das antigas Caves Velhas de Camilo Alves, da Central de Cervejas, e da ENOPORT WINES. E foi a convite do seu atual proprietários, Nuno Santos, em nome da EW, que fui integrado num trio de representantes da Confraria do Ari to de Bucelas. Entre diversas entidades, coube-nos testemunhar esta nova etapa deste terreno, que dá origem ao Projeto ‘Quinta de Cima’, promovido pelo consórcio entre ENOPORT WINES, Enovalor e Quinta da Torre.

Trata-se de uma proposta de criação na área do enoturismo, dedicada a reunir três ativos em Bucelas relevantes e distintos entre si: a Quinta da Torre, como espaço privilegiado para alojamento e realização de eventos de diversos âmbitos; a Quinta do Boição, na sua dimensão produtiva de vinho; e finalmente, as antigas Caves Velhas (1881), como espaço de formação na área da cultura do vinho e da vinha.

Em toda esta riqueza patrimonial, a Casa Medieval da Torre de Cima, assume-se como a jóia por excelência, dada a sua especificidade enquanto elemento histórico único. A apresentação da casa esteve a cargo da pessoa que mais a estudou, desde a década de 90, a Arqueóloga Florbela Estêvão, técnica do Município de Loures, e que nos mostrou um pouco do que poderá ser depois mais aprofundado e melhor compreendido da história do lugar. A casa assume-se ainda com marcas evidentes do seu período inicial de construção, do século XIV, como um raro edifício de habitação medieval, de carácter senhorial, apresentando técnicas e desenho posteriores, relevantes para a compreensão do desenvolvimento daquele lugar.

O projeto envolverá este exemplar de arquitetura medieval nacional, já classificado, e deixa antever um investimento muito importante e muito pertinente para a freguesia de Bucelas. Está tudo em desenvolvimento, mas a apresentação serviu de pontapé de saída para confirmar a sua concretização a partir de agora.

(Os artigos de Opinião aqui publicados  são da responsabilidade dos seus autores e podem não reflectir as posições da ADAL).

Um PDM ao serviço de Loures com a Gestão da CDU

O Plano Diretor Municipal (PDM) é muito mais do que um documento técnico de ordenamento; é o desenho do futuro do nosso território e a base sobre a qual se construirá a qualidade de vida das próximas gerações em Loures.
Com o processo de revisão do PDM já em curso, a ADAL – Associação de Defesa do Ambiente de Loures entende que este é um momento crucial para aprofundar a reflexão e participação democrática. Acreditamos que um futuro sustentável exige a audição e envolvimento de diversas sensibilidades técnicas, cívicas e políticas democráticas.

Neste sentido, a ADAL endereçou um convite a Vereadores da Câmara Municipal de Loures, desafiando-os a partilhar a sua visão, prioridades e objetivos estratégicos para o concelho na próxima década.

Continuamos agora a publicação destes artigos de opinião, oferecendo aos nossos associados e aos munícipes um espaço de análise sobre os rumos propostos para o nosso território.

por Gonçalo Caroço (PCP-PEV), Vereador da Câmara Municipal de Loures

O processo da 2ª revisão do Plano Diretor Municipal de Loures (PDM) inicia-se agora, 11 anos após a vigência da 1.ª revisão do PDM publicada em junho de 2015 com a administração CDU. Foi na sequência de três mandatos autárquicos, sob presidência do PS, entre 2001-2013, que foi sendo protelada a conclusão do processo da 1.ª revisão, apenas tendo visto a luz do dia em agosto de 2013 à boca das eleições autárquicas que o PS viria a perder para a CDU.

Foi por isso, com a CDU que, em sede de discussão pública do documento, após ampla participação da população, se conseguiu corrigir e melhorar qualitativamente a proposta inicialmente formulada. Com um atraso considerável de mais de 12 anos na execução da 1.ª revisão, a sua publicação, com a dinâmica imposta pela gestão da CDU, veio criar condições para a retoma de inúmeros processos de legalização em diversas Augis, com cerca de 20 alvarás emitidos entre 2013-2021 ou a captação de inúmeras atividades económicas para o Concelho.

Tal evolução proporcionou a execução em cerca de 75% do total da sua área de solo urbano, estando os espaços “residenciais e os espaços de atividades económicas executados em cerca de 85%, correspondendo a 2187Ha de áreas residenciais e 967,49Ha de áreas para atividades económicas. Com valorização e cativação de mais atividades económicas para o Concelho, conseguiu-se reduzir os movimentos pendulares entre a casa e o trabalho, aumentando também as áreas afetas a serviços e comércio local com o natural aumento da qualidade de vida dos que aqui moram e trabalham, alterando-se assim, o paradigma de Loures “Concelho Dormitório” da área metropolitana de Lisboa. No entanto, muitas destas oportunidades estão comprometidas, e até, em alguns casos, completamente eliminadas.

Loures é, neste momento, e cada vez mais, fruto da ausência de estratégia de desenvolvimento da governação PS, o “armazém” da cidade de Lisboa. A instalação desregrada de grandes operadoras logísticas no território é disso evidência: o novo parque logístico que vai nascer no local da antiga fábrica da Covina em Santa Iria da Azóia, que atingirá uma área total de 21 hectares, ou no planalto de Camarate, junto ao denominado Lar Panorâmico, ou ainda, o depósito de contentores marítimos que nasceu na freguesia de Bucelas, são exemplos desta triste realidade. Todas estas atividades, que este executivo permitiu instalar sem critério, pouco trazem de valor acrescentado à economia do Concelho, com consequências negativas, nomeadamente no incremento de movimentações de pesados nos eixos rodoviários do Concelho e, naturalmente, no aumento da poluição ambiental associada às suas atividades.

A tais infraestruturas, com impacto inegável na vida das populações, estão associadas infraestruturas rodoviárias insuficientes, como a EN10, desqualificada e sem capacidade de escoamento do tráfego rodoviário já existente.

Depois de a CDU ter conseguido a aproximação ao rio, com o novo passeio ribeirinho e, com o compromisso assumido em abril de 2021 pelo anterior Governo, da retirada progressiva dos contentores da plataforma logística da Bobadela, que durante décadas foram barreira visual para todos quantos sempre viveram junto ao Tejo, vê-se a população agora confrontada com a instalação de diversos parques logísticos e de contentores junto às suas casas e com o adiamento sem previsão da retirada dos restantes contentores da frente ribeirinha.

Na mobilidade, apesar de avanços essenciais com a criação da Transportes Metropolitanos de Lisboa, a implementação do passe Navegante e a entrada da Carris Metropolitana em operação, que trouxe melhorias na cobertura e uma melhor adequação da oferta, estamos ainda longe da rede que o Concelho precisa.

O PDM deve servir as necessidades da população e do Concelho

É partindo desta premissa que a revisão do PDM deve responder às principais prioridades para Loures.

Na área da mobilidade, agora que se anuncia o início das obras do Metro ligeiro de superfície para Loures, é essencial a articulação dos diversos modos de transportes de forma a torná-los mais eficientes e capazes de atrair mais utilizadores para o transporte público. Em muitas situações, como são por exemplo as obras da Praça da República e da nova rotunda da Avenida do Estado da Índia, em Sacavém, a prioridade é dada ao automóvel, em desfavor do espaço público que se deve ambicionar, nas cidades modernas, priorizado para as pessoas. Os projetos de mobilidade suave e de ampliação da rede ciclável concelhia desapareceram dos objetivos do executivo em funções.

A requalificação e valorização ambiental do parque da várzea e da zona Norte do Concelho, foram interrompidos com a gestão PS, perdendo-se a oportunidade de valorização com um  enorme potencial identitário do nosso território na Zona Norte de Loures.

No licenciamento urbanístico, reflexo concreto das medidas definidas em PDM, tem de se voltar ao serviço do interesse público e não subjugado ao interesse especulativo do privado. As oportunidades de regeneração urbana do loteamento do antigo Quartel de Sacavém, ou em Loures o denominado Loures Nascente, e nos terrenos do antigo Campo do Grupo Sportivo de Loures, ou em Santo António dos Cavaleiros o loteamento na envolvente do Centro de Saúde, são disso exemplo, com prejuízos evidentes que, se deverão notar a curto e médio prazo na vida das populações.

É neste contexto que a gestão PS iniciou a 2ª revisão do PDM, depois de forte mobilização e desenvolvimento de áreas urbanas no Concelho na última década. Sem a concretização prática de uma estratégia que valorize e qualifique o território, anuncia-se a intenção de redefinição dos aglomerados urbanos e dos índices urbanísticos de construção. Antecipa-se a continuidade de uma visão de curto prazo, para satisfação dos mesmos privilegiados, sem atender a um objetivo estratégico concelhio de médio e longo prazo que coloque o nosso Concelho, verdadeiramente, no Centro do interesse das populações que aqui habitam e trabalham!

É determinante encontrar meios e soluções, no quadro deste processo de revisão do PDM, para a construção de mais habitação para aqueles que se encontram a viver em condições indignas e precárias, bem como para os jovens que se querem fixar no Concelho, mas que se veem forçados a tentar a sua sorte noutros Distritos, ou até mesmo fora do País, e ainda, para os que, embora com rendimentos fruto do seu trabalho, não encontram alternativas de habitação que sejam compatíveis com o salário médio que usufruem. Também nas áreas insusceptíveis de recuperação mais expostas e vulneráveis, como verificámos nas intempéries que assolaram recentemente a nossa região, é decisivo encontrar-se uma resposta e estratégia de futuro!

Esta 2.ª revisão do PDM deve ser também aproveitada para criar as condições para Loures ter de facto uma rede escolar e de equipamentos sociais que respondam às necessidades das pessoas. Também aqui a preparação do território para a qualificação da população e para a resposta a quem mais precisa vai ser fundamental para termos um Concelho mais solidário e em que as crianças e os seus pais tenham como Loures uma referência para o seu futuro que não é mais do que o futuro de Loures também.

Porque sem pessoas não há futuro e Loures precisa de todos para se construir todos os dias.

É, portanto, essencial que no decurso do processo da 2ª Revisão do PDM, que agora se inicia, haja espaço para a partilha de propostas e auscultação da população, essencial para o sucesso dos que aqui habitam, estudam e trabalham, agora e no futuro!

(Os artigos de opinião aqui publicados são da responsabilidade exclusiva dos seus autores e a ADAL pode não se reconhecer nos pontos de vista expressos.)

Sem investimento, perde-se água… e o Futuro

por Paulo Piteira

Em Portugal estima-se que se perca, diariamente, 27 a 30% da água tratada que entra nas redes de abastecimento público. O volume anual das perdas está estimado entre 184 a 190 milhões de metros cúbicos. Traduzido em linguagem comum, isto equivale a 8,7 a 12 piscinas olímpicas, por hora. Em 2023 estas perdas custaram aos municípios cerca de 190 milhões de euros.

Isto acontece não por falta de tecnologia ou de conhecimento, mas porque muitas infraestruturas têm décadas de existência e aguardam há demasiado tempo por renovação.

Durante a pandemia de COVID-19, a Organização das Nações Unidas voltou a lembrar algo que deveria ser evidente a todos os poderes: o acesso à água potável é um direito humano fundamental.

A água sustenta a saúde pública e a qualidade de vida das populações, a produção agrícola e a atividade industrial. Garantir o acesso universal a este bem essencial com qualidade e a preço justo deve ser uma prioridade para o Estado central e as autarquias.

Por essa razão, a água não pode ser tratada como uma simples mercadoria sujeita à lógica do lucro. Quando a gestão da distribuição é entregue a operadores privados, o objetivo tende a deslocar-se da satisfação das necessidades das populações para a maximização do retorno financeiro para os acionistas.

A experiência internacional mostra isso mesmo. Em muitas cidades onde os serviços de água foram privatizados registaram-se aumentos de tarifas, menor transparência na gestão e investimento insuficiente nas infraestruturas, sobretudo nas zonas menos rentáveis.

Não por acaso, mais de 180 cidades em 35 países reverteram processos de privatização ou concessão do abastecimento de água. Paris, Berlim, Bordéus ou Hamburgo devolveram a gestão deste serviço essencial ao setor público.

Também em Portugal há exemplos relevantes. Municípios como Mafra, em 2017, ou Setúbal, em 2022, recuperaram para a gestão pública direta a distribuição e venda da água, com benefício para os consumidores. Em Setúbal, por exemplo, o preço da água diminuiu cerca de 20% em 2023 após o regresso do sistema à gestão municipal.

Contudo, há um desafio estrutural que permanece e que ameaça a qualidade e racionalidade futura dos sistemas de distribuição e de que poucos falam: o envelhecimento das redes em baixa e a sua escassa substituiçãol.

Em muitos municípios tratam-se de infraestruturas com centenas de quilómetros de extensão e muitas décadas de existência, onde as perdas são muito elevadas. A renovação dessas redes exige vultuosos investimentos, impossíveis de suportar apenas com os limitados recursos financeiros das autarquias, como o Governo bem sabe.

No entanto, nem o Orçamento do Estado nem o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) reservaram verbas relevantes para esta modernização. As dotações existentes concentram-se exclusivamente nos sistemas em alta, deixando a rede em baixa sem apoios.

Na prática, isto significa que a reabilitação das infraestruturas terá de ser paga exclusivamente pelas já frágeis finanças municipais ou por aumentos significativos das tarifas aos consumidores que a justiça social desaconselha e impede.

Esta ausência de investimento origina outra consequência muito preocupante: a degradação das redes pode vir a ser usada como argumento para justificar novas concessões ou privatizações.

A questão central é simples: como financiar o investimento necessário?

Na ausência de financiamento direto pelo OGE, que não alocou verbas para este efeito, devem então buscar-se os recursos onde eles existem.

Os quatro maiores bancos a operar em Portugal — CGD, BCP, Santander e BPI — registaram em 2025 lucros agregados de cerca de 4,4 mil milhões de euros. O lançamento de um imposto extraordinário de apenas 10% sobre esses lucros permitiria arrecadar cerca de 440 milhões de euros que poderiam servir para apoiar a reabilitação das redes públicas de água.

Garantir água pública, acessível e de qualidade não é apenas uma questão de gestão. É sobretudo uma escolha política sobre o que mais importa e que  interesses devem prevalecer.

E essa escolha deve ser clara: a água tem de continuar a pertencer a todos.

Mobilizemo-nos para que tal aconteça!

(Os artigos de opinião aqui publicados são da responsabilidade exclusiva dos seus autores e a ADAL pode não se reconhecer nos pontos de vista expressos.)