Sem investimento, perde-se água… e o Futuro

por Paulo Piteira

Em Portugal estima-se que se perca, diariamente, 27 a 30% da água tratada que entra nas redes de abastecimento público. O volume anual das perdas está estimado entre 184 a 190 milhões de metros cúbicos. Traduzido em linguagem comum, isto equivale a 8,7 a 12 piscinas olímpicas, por hora. Em 2023 estas perdas custaram aos municípios cerca de 190 milhões de euros.

Isto acontece não por falta de tecnologia ou de conhecimento, mas porque muitas infraestruturas têm décadas de existência e aguardam há demasiado tempo por renovação.

Durante a pandemia de COVID-19, a Organização das Nações Unidas voltou a lembrar algo que deveria ser evidente a todos os poderes: o acesso à água potável é um direito humano fundamental.

A água sustenta a saúde pública e a qualidade de vida das populações, a produção agrícola e a atividade industrial. Garantir o acesso universal a este bem essencial com qualidade e a preço justo deve ser uma prioridade para o Estado central e as autarquias.

Por essa razão, a água não pode ser tratada como uma simples mercadoria sujeita à lógica do lucro. Quando a gestão da distribuição é entregue a operadores privados, o objetivo tende a deslocar-se da satisfação das necessidades das populações para a maximização do retorno financeiro para os acionistas.

A experiência internacional mostra isso mesmo. Em muitas cidades onde os serviços de água foram privatizados registaram-se aumentos de tarifas, menor transparência na gestão e investimento insuficiente nas infraestruturas, sobretudo nas zonas menos rentáveis.

Não por acaso, mais de 180 cidades em 35 países reverteram processos de privatização ou concessão do abastecimento de água. Paris, Berlim, Bordéus ou Hamburgo devolveram a gestão deste serviço essencial ao setor público.

Também em Portugal há exemplos relevantes. Municípios como Mafra, em 2017, ou Setúbal, em 2022, recuperaram para a gestão pública direta a distribuição e venda da água, com benefício para os consumidores. Em Setúbal, por exemplo, o preço da água diminuiu cerca de 20% em 2023 após o regresso do sistema à gestão municipal.

Contudo, há um desafio estrutural que permanece e que ameaça a qualidade e racionalidade futura dos sistemas de distribuição e de que poucos falam: o envelhecimento das redes em baixa e a sua escassa substituiçãol.

Em muitos municípios tratam-se de infraestruturas com centenas de quilómetros de extensão e muitas décadas de existência, onde as perdas são muito elevadas. A renovação dessas redes exige vultuosos investimentos, impossíveis de suportar apenas com os limitados recursos financeiros das autarquias, como o Governo bem sabe.

No entanto, nem o Orçamento do Estado nem o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) reservaram verbas relevantes para esta modernização. As dotações existentes concentram-se exclusivamente nos sistemas em alta, deixando a rede em baixa sem apoios.

Na prática, isto significa que a reabilitação das infraestruturas terá de ser paga exclusivamente pelas já frágeis finanças municipais ou por aumentos significativos das tarifas aos consumidores que a justiça social desaconselha e impede.

Esta ausência de investimento origina outra consequência muito preocupante: a degradação das redes pode vir a ser usada como argumento para justificar novas concessões ou privatizações.

A questão central é simples: como financiar o investimento necessário?

Na ausência de financiamento direto pelo OGE, que não alocou verbas para este efeito, devem então buscar-se os recursos onde eles existem.

Os quatro maiores bancos a operar em Portugal — CGD, BCP, Santander e BPI — registaram em 2025 lucros agregados de cerca de 4,4 mil milhões de euros. O lançamento de um imposto extraordinário de apenas 10% sobre esses lucros permitiria arrecadar cerca de 440 milhões de euros que poderiam servir para apoiar a reabilitação das redes públicas de água.

Garantir água pública, acessível e de qualidade não é apenas uma questão de gestão. É sobretudo uma escolha política sobre o que mais importa e que  interesses devem prevalecer.

E essa escolha deve ser clara: a água tem de continuar a pertencer a todos.

Mobilizemo-nos para que tal aconteça!

(Os artigos de opinião aqui publicados são da responsabilidade exclusiva dos seus autores e a ADAL pode não se reconhecer nos pontos de vista expressos.)

O Futuro de Loures em Debate: Revisão do PDM

O Plano Diretor Municipal (PDM) é muito mais do que um documento técnico de ordenamento; é o desenho do futuro do nosso território e a base sobre a qual se construirá a qualidade de vida das próximas gerações em Loures.
Com o processo de revisão do PDM já em curso, a ADAL – Associação de Defesa do Ambiente de Loures entende que este é um momento crucial para aprofundar a reflexão e participação democrática. Acreditamos que um futuro sustentável exige a audição e envolvimento de diversas sensibilidades técnicas, cívicas e políticas democráticas.

Neste sentido, a ADAL endereçou um convite a Vereadores da Câmara Municipal de Loures, desafiando-os a partilhar a sua visão, prioridades e objetivos estratégicos para o concelho na próxima década.

Iniciamos agora a publicação destes artigos de opinião, oferecendo aos nossos associados e aos munícipes um espaço de análise sobre os rumos propostos para o nosso território.

por Nelson Batista (PPD/PSD. CDS-PP), Vereador da Câmara Municipal de Loures

A revisão do Plano Diretor Municipal não é um exercício técnico neutro — é uma decisão profundamente política sobre o futuro de um território. No caso de Loures, esta revisão representa uma escolha entre continuar a gerir pressões avulsas ou assumir, com clareza, um projeto de desenvolvimento equilibrado, sustentável e socialmente justo. É precisamente por isso que o debate público não pode ficar fechado em gabinetes técnicos nem limitado a linguagem jurídica e cartográfica.

Loures ocupa uma posição estratégica e fundamental na Área Metropolitana de Lisboa, concentrando funções logísticas, tecnológicas, comerciais, industriais, residenciais e rurais. Essa diversidade é uma riqueza — mas também uma fonte de conflito. Sempre que se revê um PDM, decide-se onde se pode construir, onde se deve proteger, que atividades se querem atrair e que modelo de cidade e de território se pretende deixar às próximas gerações. Fingir que isto é apenas “ordenamento” é esconder a dimensão política das escolhas.

Um dos riscos habituais nestes processos é a captura do planeamento por interesses de curto prazo. A pressão para classificar mais solo como urbano, flexibilizar índices construtivos ou legitimar ocupações discutíveis surge quase sempre acompanhada de argumentos de crescimento e investimento. Mas crescimento sem critério não é desenvolvimento — é apenas consumo de território. Num concelho com zonas agrícolas produtivas e áreas naturais sensíveis, a expansão urbana descontrolada não é progresso: é perda irreversível.

A revisão do PDM deve, por isso, assumir um princípio político claro: o solo é um recurso finito e coletivo. Não pode ser tratado apenas como ativo imobiliário. Cada hectare reclassificado é uma decisão que afeta mobilidade, custos de infraestruturas, ambiente e qualidade de vida. Mais dispersão urbana significa mais dependência do automóvel, mais despesa pública em redes e serviços e menor eficiência territorial. A escolha responsável é densificar com qualidade onde já existe cidade e proteger onde ainda existe território rural e ecológico.

Outro ponto essencial é a justiça territorial. Nem todas as freguesias partem da mesma base de infraestruturas, equipamentos e espaço público. No concelho coexistem freguesias predominantemente rurais a norte — como Lousa, Fanhões, Bucelas e Santo Antão e São Julião do Tojal, bem como parte significativa da própria Loures — e uniões de freguesias com predominância urbana, como Santo António dos Cavaleiros e Frielas, Camarate, Unhos e Apelação, Moscavide e Portela, Sacavém e Prior Velho e Santa Iria de Azoia, São João da Talha e Bobadela, muitas delas ainda longe de um ordenamento plenamente qualificado. Um PDM revisto com visão política deve corrigir assimetrias internas, reforçando centralidades locais, garantindo acesso a serviços e evitando que certas zonas se tornem apenas dormitórios ou plataformas logísticas sem vida urbana. Planeamento também é redistribuição — de oportunidades, de investimento e de qualidade urbana.

A dimensão económica também precisa de clareza estratégica. Loures tem vocação e potencial para um crescimento empresarial criterioso e diferenciador, mas isso não pode traduzir-se numa proliferação desordenada de armazéns e plataformas. A revisão do plano deve definir onde faz sentido concentrar atividades económicas, com exigência ambiental, desenho urbano qualificado e boa articulação com transportes. Emprego e competitividade não são incompatíveis com regras — pelo contrário, dependem de previsibilidade e organização.

Há ainda a questão ambiental, demasiadas vezes tratada como condicionante e não como estrutura. Linhas de água, corredores verdes, áreas agrícolas e zonas de risco não são “sobras” do território — são a sua base ecológica. Num contexto de alterações climáticas, cheias mais frequentes e ondas de calor, proteger e reforçar sistemas naturais é uma decisão de proteção civil e de saúde pública. Um PDM moderno não empurra a natureza para o canto do mapa: coloca-a no centro do modelo territorial.

Politicamente, o processo tem também de ser transparente. A participação pública não pode ser um ritual formal com documentos incompreensíveis e prazos discretos. Se as decisões são estruturais, o debate tem de ser real. Mapas claros, cenários alternativos, explicação de impactos — tudo isto é indispensável para que cidadãos, empresários e associações possam opinar com conhecimento. Participar não é apenas reagir: é poder influenciar.

Importa dizer, com frontalidade, que rever um PDM também é dizer “não”. Não a projetos mal localizados. Não a exceções sucessivas. Não à ideia de que cada investimento, por existir, deve ser aceite. A política territorial responsável define limites — e sustenta-os. A alternativa é a negociação caso a caso, que gera desigualdade, incerteza e desconfiança.

Mas dizer “não” não basta. É preciso dizer “sim” a um modelo: mais reabilitação urbana, mais espaço público, mais mobilidade sustentável, mais mistura de usos, mais proximidade entre habitação, emprego e serviços. Um plano diretor deve ser um projeto coletivo de território, não apenas um regulamento defensivo.

No fim, a revisão do PDM de Loures será um teste de maturidade política. Se prevalecer a visão de longo prazo, o concelho ganhará coerência, resiliência e qualidade de vida. Se prevalecer o curto prazo, ganhar-se-ão metros quadrados — e perder-se-á território. Planeamento é escolha. E escolher é fazer política.

(Os artigos de opinião aqui publicados são da responsabilidade exclusiva dos seus autores e a ADAL pode não se reconhecer nos pontos de vista expressos.)

AS LINHAS COM QUE SE COSE O NOSSO FUTURO por

Demétrio Alves, Investigador, Doutorado em planeamento e ordenamento do território, ex-presidente da CM de Loures

De tanto se espremerem os orçamentos públicos para agradar a Bruxelas e, simultaneamente, fruto do impulso privatizador de tudo quanto é crucial para o desenvolvimento e soberania, Portugal está cada vez mais fragilizado e exposto, não apenas aos eventos naturais extremos, mas também ao oportunismo populista da extrema-direita.

Na madrugada do dia 28 de Janeiro de 2026, aquando da fase mais intensa da tempestade Kristin, cerca de um milhão de consumidores ficaram sem abastecimento de energia eléctrica devido ao colapso de muitas dezenas de postes e linhas de transporte e distribuição de electricidade. Além da intensa chuva, o vento soprou com rajadas de até um pouco mais de 170 km/h no litoral. Foi referido que, em anemómetros particulares (ligados à exploração eólica), teriam sido registadas velocidades superiores aos 200 km/h, mas o que aqui interessará é a comparabilidade estatística de longo prazo, e essa é aferida pelas medições realizadas pelas entidades oficiais.

A interrupção eléctrica significou impactos directos em cerca de três milhões de pessoas e muitos milhares de empresas de todas as dimensões, além de diversas entidades públicas e privadas, entre as quais os operadores privados de telecomunicações. O impacto económico e social é enorme.

No dia 3 de Fevereiro, uma semana depois, mais de 100 000 consumidores continuavam sem electricidade. Os distritos mais afectados são Leiria, com cerca de metade do total de consumidores afectados, Coimbra, Castelo Branco, Portalegre e Santarém. Numa parte significativa do Pinhal de Leiria, os pinheiros foram arrasados.

Em 23 de Dezembro de 2009, a região Oeste também foi fustigada por uma violenta tempestade com mais de 100 km de linhas de média e baixa tensão afectadas, além de 500 ha de estufas destruídas. Houve órgãos de comunicação social, citando institutos oficiais, a escreverem que os ventos teriam chegado aos 200 km/h.  E, em 2013 e 2018, primeiro o Gong e, depois, o ciclone extratropical Leslie, também trouxeram consigo enormes prejuízos, cortes de electricidade a centenas de milhar de consumidores e alguns óbitos.

Portanto, considerando ainda o ciclone de Fevereiro de 1941 (120 mortos, rajadas de 230 km/h), e as enormes chuvas e inundações de 1967 (700 mortos), além de três ou quatro outros eventos de menor monta, não se está, como parece fazer-se crer, perante um evento extremo inédito, nem, sequer, significativamente mais intenso do que outros no passado.

As repercussões, essas, é que vão crescendo dado o visível aumento do (des)ordenamento do território e do aumento da edificação de habitação e de edifícios para actividades económicas, que se estende até aos solos que a legislação e os regulamentos apontam como interditos, porque fundamentais para os interesses colectivos e equilíbrios naturais. Aliás, é de perguntar quantas das «derrocadas» em edifícios e em estruturas de suporte ou cobertura não estarão relacionadas com as «liberalidades» introduzidas pelos diversos Simplex? A valorização da vertente económica não pode ser feita à custa da segurança, do ordenamento do território e do licenciamento zero!

A questão central a colocar é a de saber quando é que as entidades responsáveis, principalmente o governo central do Estado, darão início a um sólido e concreto programa de prevenção e adaptação das diversas infra-estruturas, das edificações de todo o tipo, e, também, das áreas florestais, das áreas inundáveis e das vertentes e escarpas, face aos vários eventos naturais, extremos ou medianos, que regularmente incidem no território português com uma frequência que, seguramente, não irá diminuir.

O esforço da adaptação é vital e prioritário, não só face aos eventos extremos e médios correlacionáveis com as alterações climáticas antrópicas, mas relativamente a todos eventos que se vêm repetindo ciclicamente desde há séculos e com apenas um pouco mais de intensidade em certos casos. Até porque, com a muito acarinhada mitigação/descarbonização, mesmo que fossem cumpridos os mais ambiciosos cenários, não se resolverá nenhum destes problemas nas próximas décadas.

«A valorização da vertente económica não pode ser feita à custa da segurança, do ordenamento do território e do licenciamento zero!»

Os postes de sustentação das linhas aéreas onde transita a electricidade dos diversos escalões, desde a Muito Alta Tensão até à Baixa Tensão que chega à maioria das casas e pequenos estabelecimentos, podem ter tipos e dimensões muito distintas. Em geral, os postes que suportam as linhas de transporte e as de distribuição em alta e média tensão são construídos com recurso a elementos metálicos montados em torres fixadas ao solo através de fundações adequadas (espera-se …). O conjunto dos postes, tendo em conta os esforços mecânicos que lhes são transmitidos pelos cabos eléctricos (muito pesados), bem como os esforços a que eles próprios são sujeitos pelos ventos intensos, deve ser construído e montado de forma a garantir a estabilidade e distâncias de segurança exigidas pelas normas vigentes, às quais a E-Redes e a REN, apesar de privadas, estão obrigadas.

Cada um dos postes, maior ou menor, considerado isoladamente, só num caso de gravíssimo erro técnico é que se dobraria ou partiria, quando exposto a ventos ou precipitações intensas. Contudo, aos postes são fixados vários cabos, normalmente três ou seis, neste caso três de cada lado, que, proporcionalmente à tensão eléctrica e à quantidade de electricidade que neles circula, deverão ser constituídos por compósitos metálicos e de isolamento adequados às características do fluxo eléctrico. Entre dois postes sucessivos, os vãos podem ter muitas dezenas ou, até, centenas de metros, o que determina nos postes enormes cargas mecânicas de tracção (e/ou torção), que, normalmente, estão equilibradas pela existência de forças em sentido contrário nos dois lados.  Só alguns postes, e em casos especiais, são construídos e ligados ao solo, de forma a suportarem todo o esforço de cabos a ele ligados só por um dos lados.

Os problemas surgem quando, por acção dos elementos naturais (vento, gelo, etc.,) numa escala extraordinária, ou, então, de objectos de grandes dimensões (árvores, por exemplo) que embatam nas linhas ou, até, no próprio poste, é provocada uma rotura no equilíbrio: neste caso o poste dobra-se ou, até, poderá fracturar-se, arrastando consigo, numa onda de desequilíbrio, vários postes, pondo as respectivas linhas no chão. 

Parece terem acontecido, em vários casos, impactos de grandes árvores arrastadas pelo vento nas linhas, levando-as directa ou indirectamente à rotura. E, aí, o desequilíbrio provocado nos postes conduz ao seu colapso.

Face aos eventos extremos e, sobretudo, à densificação das linhas de transporte e distribuição no território, poderá colocar-se a possibilidade de fazer passar as linhas para o subsolo por questões de segurança das redes. Por outros motivos (impacto nas populações, por exemplo) isso já é realizado, embora parcimoniosamente. Contudo, a hipótese de passar para redes subterrâneas uma grande parte das linhas de muito alta, alta e média tensões, acarretaria sobrecustos que viriam a ser, provavelmente, repercutidos nos já muito penalizados consumidores, principalmente, nas famílias e outros consumidores domésticos e pequenas empresas. Ou, então, seriam imputados aos contribuintes. Assim, a opção por cabos subterrâneos deverá ser bem ponderada, mas, em princípio, deve ser reservada para situações especiais como, por exemplo, áreas muito povoadas ou com especificidades ecológicas particulares.

Perante o aumento de probabilidade de haver incidentes como os que aqui se estão a tratar, será necessário, primeiro, indagar se tudo o que tem sido construído e montado tem obedecido às especificações e margens de segurança regulamentares. Depois, haverá que estudar e, eventualmente, promover o reforço mecânico dos postes, acção que também significaria investimento muito expressivo. A fazer-se, a região Oeste seria uma forte candidata. 

Face às situações objectivas no domínio meteorológico, que existem já há muitas décadas, e que podem estar a agravar-se paulatinamente, será necessário estudar soluções para aumentar a resiliência destas infra-estruturas vitais.

Aliás, seria bom que os promotores de uma rápida descarbonização e concomitante electrificação, que implica uma ainda maior densificação de linhas no território para colectar a electricidade de miríades de unidades fotovoltaicas e eólicas, reflictam acerca de uma transição que, além do consecutivos aumentos preços, está a provocar grandes desequilíbrios no ordenamento do território e no plano ambiental.   

Finalmente, um aspecto central diz respeito à tipologia das empresas que imperam neste domínio: a E-Redes e a REN, que, embora inseridas num sector estratégico e vital para a segurança e acessibilidade a um factor vital para o desenvolvimento socio-económico, a electricidade, não estão sob o controlo do Estado. Ao contrário do que acontece em muitos países ocidentais, as referidas empresas foram privatizadas, pertencendo preponderantemente a entidades particulares, designadamente estrangeiras, que, obviamente, as gerem com os olhos postos nos seus próprios interesses.

«Um aspecto central diz respeito à tipologia das empresas que imperam neste domínio: a E-Redes e a REN, que, embora inseridas num sector estratégico e vital para a segurança e acessibilidade a um factor vital para o desenvolvimento socio-económico, a electricidade, não estão sob o controlo do Estado.»

Um dos mais notórios aspectos prende-se com o esvaziamento das equipas e piquetes especializados e destinados a actuar rapidamente em emergências como as que têm acontecido. Claro, dir-nos-ão que não podem ter centenas de trabalhadores à espera que aconteça um desastre, porque isso lhes encurta os resultados. Bem, e dos interesses de Portugal e de milhões de portugueses, quem cuida durante os dias ou semanas, em que a electricidade falha?

Não será, salvo melhor opinião, através de sucessivos subfornecedores e subempreiteiros que, em cima da hora, vão arrebanhar centenas de trabalhadores, que os problemas se resolverão adequada e atempadamente. E, também não será com stocks reduzidos à insignificância, que se suprirão as necessidades de substituição das partes avariadas ou destruídas neste tipo de eventos.

De tanto se espremerem os orçamentos públicos para agradar a Bruxelas e, simultaneamente, fruto do impulso privatizador de tudo quanto é crucial para o desenvolvimento e soberania, Portugal está cada vez mais fragilizado e exposto, não apenas aos eventos naturais extremos, mas, também, ao consenso neoliberal e ao oportunismo populista de uma extrema-direita, aliás, alimentada em grande medida pelas falhas socio-económicas do primeiro.

(Os artigos de Opinião aqui publicados  são da responsabilidade dos seus autores e podem não reflectir as posições da ADAL).

Insetos e Artrópodes: Pequenos Seres, Grande Impacto

INSETOS. Essa palavra pode causar em si um arrepio involuntário, evocando imagens de aranhas peludas escondidas nos cantos da casa ou de mosquitos zumbindo junto aos seus ouvidos. Para muitos, esses pequenos seres são apenas criaturas desagradáveis que se esforçam por evitar. No entanto, será que essa visão faz justiça ao papel crucial que desempenham na natureza? Neste texto, procurarei ajudar a diminuir essa repulsa ou talvez ajudá-lo a ver os insetos e artrópodes sob uma nova e mais positiva perspetiva.

A Diferença entre Artrópodes e Insetos

Comecemos por fazer a distinção entre artrópodes e insetos: todos os insetos são artrópodes, mas nem todos os artrópodes são insetos. Os artrópodes constituem o maior e mais diversificado filo do reino animal, representando cerca de 80% de todas as espécies descritas no planeta. São invertebrados com um exoesqueleto quitinoso, corpo segmentado e apêndices articulados. Dentro deste vasto grupo encontramos os insetos, mas também os aracnídeos, como aranhas ou escorpiões, os crustáceos, como caranguejos, lagostas ou camarões e os miriápodes, como as centopeias.

Os insetos, por sua vez, pertencem à classe Insecta, sendo caracterizados por possuírem três pares de patas, corpo dividido em três partes (cabeça, tórax e abdómen) e, na maioria dos casos, asas. Representam a classe mais numerosa dentro dos artrópodes e desempenham papéis fundamentais nos ecossistemas. Apesar de muitas vezes serem vistos apenas como pragas, a verdade é que, sem eles, a vida na Terra seria drasticamente diferente.

O Papel dos Insetos no Meio Ambiente

  Polinização: Os Jardineiros do Mundo Natural

Uma das funções mais notáveis dos insetos na natureza é a polinização. As abelhas são os exemplos mais conhecidos, pois além de auxiliarem na reprodução das plantas, ainda produzem o mel que tanto apreciamos. No entanto, a importância da polinização vai muito além das abelhas. Saiba, por exemplo, que o cacau, matéria-prima do chocolate, é polinizado por pequenas moscas, logo sem essas diminutas criaturas, não haveria chocolate.

 Decomposição: A Reciclagem Natural

Os insetos também desempenham um papel crucial na decomposição da matéria orgânica. Besouros, formigas e moscas ajudam a decompor restos de animais e plantas, reciclando nutrientes para o solo. Esse processo é essencial para manter a fertilidade da terra, garantindo que os nutrientes sejam reaproveitados e possam sustentar novas formas de vida.

Um exemplo notável é o dos besouros rola-bostas, que enterram fezes de animais, promovendo a reciclagem de nutrientes e ajudando no controlo de parasitas. Sem esses pequenos trabalhadores, os campos estariam cobertos de matéria orgânica em decomposição, tornando o ambiente menos saudável.

  Base da Cadeia Alimentar: O Sustento de Muitos Animais

Outro papel fundamental dos insetos é servir como base da cadeia alimentar constituindo uma fonte de proteína altamente nutritiva para muitos animais. Algumas espécies de morcegos alimentam-se exclusivamente de insetos, consumindo milhares de mosquitos numa única noite. Os sapos, os lagartos e até alguns peixes também dependem dos insetos para a sua alimentação. Sem esses pequenos seres, muitos ecossistemas entrariam em colapso.

O Declínio dos Insetos pelo Impacto Humano

Apesar de todas as funções que realizam no ecossistema e da importância que têm no meio ambiente, os insetos são um dos grupos mais ameaçados pelas mudanças climáticas e pela poluição resultante da ação humana.

Já reparou como é raro ver borboletas dançando no ar ou abelhas voando entre campos de flores? A verdade é que esses campos já não existem, substituídos por parques de relva curta e sem grande diversidade de flora. Esses jardins bem cuidados, que aos nossos olhos parecem agradáveis e organizados, são para os insetos verdadeiras zonas desoladas onde não conseguem encontrar alimento ou abrigo.

O uso excessivo de pesticidas, a urbanização descontrolada e o desmatamento contribuem ainda mais para essa crise. A cada ano, a população de insetos polinizadores diminui drasticamente, o que coloca em risco não apenas a biodiversidade, mas também a segurança alimentar humana. Sem polinizadores, muitas culturas agrícolas enfrentariam dificuldades para se reproduzir, levando à escassez de alimentos e a impactos económicos severos.

Além da Repulsa: Uma Nova Perspetiva

É verdade que alguns insetos podem ser incómodos ou até perigosos, como mosquitos transmissores de doenças e pragas agrícolas. No entanto, a maioria não representa uma ameaça para os seres humanos e, na realidade, são aliados essenciais para o equilíbrio dos ecossistemas.

Observar os insetos com uma nova perspetiva pode ser um exercício interessante e importante. Em vez de vê-los apenas como criaturas desagradáveis, tente entender a sua incrível diversidade e os serviços ecológicos que prestam. As cores vibrantes das borboletas, a impressionante organização das colmeias de abelhas e a engenhosidade das formigas na construção dos seus ninhos são exemplos de como esses pequenos seres são verdadeiras maravilhas da natureza.

Como Todos Podemos Ajudar?

  Podemos fazer a diferença ajudando a preservar os insetos e os seus habitats:

  • Plantar flores nativas que forneçam néctar e pólen para polinizadores.
  • Evitar o uso excessivo de pesticidas, que matam insetos indiscriminadamente.
  • Criar abrigos  para insetos, pequenas estruturas onde espécies como joaninhas e abelhas solitárias podem encontrar abrigo.
  • Deixar áreas do jardim mais naturais, permitindo que ervas e flores espontâneas cresçam.

Assim sendo, e de forma a combater a perda de biodiversidade nos insetos, a ADAL decidiu promover a construção de abrigos para insetos, isto é, estruturas próprias, adaptadas às necessidades dos diferentes grupos de insetos.

Participe também neste projeto e venha ajudar a dar uma nova casa a esses seres e, quem sabe, talvez eles parem de aparecer na sua.

João David Almeida, Biólogo

(Os artigos de Opinião aqui publicados  são da responsabilidade dos seus autores e podem não reflectir as posições da ADAL).