MANIFESTO PELA MOBILIDADE SUSTENTÁVEL | Um compromisso para Loures

O Município de Loures encontra-se num novo momento decisivo para o seu futuro.
A segunda Revisão do Plano Diretor Municipal (PDM) foi lançada, e o Plano de Mobilidade e Transportes (PMT) — que funciona como o Plano de Mobilidade Urbana Sustentável (PMUS) do concelho — foi apresentado em 2023, com horizonte para 2030. Este é o momento para garantir que a mobilidade sustentável, acessível e inclusiva se torna uma realidade no território de Loures.

Loures é membro fundador da Rede Portuguesa de Municípios Saudáveis, assumindo, portanto, perante a Organização Mundial de Saúde, o compromisso de promover a saúde e o bem-estar das suas populações através de políticas urbanas integradas. A mobilidade sustentável é, necessariamente, um dos pilares fundamentais desse compromisso.

O presente manifesto, que a ADAL torna público, inspira-se nas melhores práticas e pretende constituir um contributo responsável, atento e tempestivo para a Revisão do PDM e para a implementação efectiva do PMT, alinhado com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030, em particular o ODS 11 (Cidades e Comunidades Sustentáveis) e o ODS 13 (Ação Climática).

Notas de diagnóstico
O concelho de Loures caracteriza-se por uma dualidade urbano-rural que exige respostas de mobilidade diferenciadas e integradas. Apesar dos avanços recentes — como a implementação da Carris Metropolitana e a anunciada extensão do metro, (cujo trajecto e desarticulação com a rede de metropolitano de Lisboa suscitam as maiores inquietações) — persistem desafios significativos:

  • Desigualdade territorial no acesso a transportes públicos entre as zonas urbanas e as freguesias da zona norte;
  • Elevada dependência do automóvel em deslocações curtas;
  • Ocupação extensiva do solo por parques de estacionamento de veículos em fim de vida, rent-a-car e locais de venda de automóveis novos e usados;
  • Relevante insuficiência, descontinuidade e falta de segurança nas redes pedonais e cicláveis;
  • Insegurança rodoviária para peões e ciclistas, especialmente nas proximidades de escolas e equipamentos públicos;
  • Falta de participação pública efectiva nas decisões com impacto na mobilidade.

    O PMT de Loures estabelece a visão de “alcançar uma mobilidade multimodal e sustentável que responda às necessidades de acessibilidade das pessoas e agentes económicos”, com o que se concorda.

    No entanto, a concretização de uma tal visão exige compromissos inequívocos, medidas concretas e verdadeira participação pública.

    Desde logo, proceder à indispensável actualização do PMSR – Plano Municipal de Segurança Rodoviária, percebendo-se o que evoluiu a situação e como evoluiu a sinistralidade, onde e porquê.

    Sem prejuízo do reconhecimento da existência do PMSR, a ADAL considera indispensável nesta fase, um compromisso político, social e económico das forças vivas do Concelho em ordem a uma determinação estratégica pela mobilidade sustentável.

    Compromissos para a Mobilidade Sustentável em Loures

    1. PLANEAR O FUTURO | Um Plano de Mobilidade com Participação e Transparência
      O PMT de Loures, enquanto PMUS do concelho, deve ser publicado, monitorizado e atualizado com transparência, incluindo indicadores de execução e calendário para as medidas previstas.
      Compromisso 1.1 – Garantir a publicação integral e acessível do PMT e de todos os seus documentos de suporte, bem como relatórios periódicos de monitorização que incluam um cronograma público de execução das medidas e indicadores explícitos de repartição modal (modal split) e de redução de emissões.
      Compromisso 1.2 – Assegurar a participação pública efetiva em todas as fases de desenvolvimento, revisão e monitorização do PMT, incluindo a realização de assembleias participativas e consultas públicas descentralizadas e acessíveis a toda a população.
      Compromisso 1.3 – Integrar as metas do PMT na revisão do PDM de Loures, garantindo coerência entre o planeamento do uso do solo e as políticas de mobilidade.
    1. REDUZIR AS DESIGUALDADES | Mobilidade para Todos os Territórios e Todas as Pessoas
      Assegurar o acesso equitativo a serviços, atividades e oportunidades para todas as gerações e todos os extractos sociais, promovendo a integração dos sistemas de transporte com o planeamento do uso do solo.
      Compromisso 2.1 – Garantir a interligação das freguesias de pendor rural às áreas mais fortemente urbanas através de transportes públicos de qualidade com frequências e horários adequados às reais necessidades profissionais, escolares e de saúde da população e de ligações cicláveis claras, sinalizadas e seguras.
      Compromisso 2.2 – Assegurar o acesso pedonal e ciclável contínuo e seguro a todos os serviços públicos, equipamentos de saúde, escolas e polos geradores de mobilidade, salientando-se o interesse em dar especial prioridade à eliminação de barreiras físicas que isolam as populações da zona norte dos principais eixos de transporte.
      Compromisso 2.3 – Implementar serviços de transporte flexível para populações em situação de isolamento social ou geográfico, nomeadamente idosos e pessoas com mobilidade reduzida.
    1. PARTICIPAÇÃO PÚBLICA | Decidir com as Pessoas
      Estabelecer mecanismos permanentes e transparentes de participação pública em todas as ações municipais com impacto na mobilidade urbana.
      Compromisso 3.1 – Criar um observatório ou conselho consultivo de mobilidade com representação da sociedade civil, incluindo associações ambientais, de moradores, de utilizadores de transportes públicos e de mobilidade ativa, garantindo uma representação geográfica equilibrada que integre representantes das freguesias da zona norte e das zonas urbanas.
      Compromisso 3.2 – Realizar consultas públicas e sessões participativas sempre que forem tomadas decisões com impacto na mobilidade, desde o planeamento estratégico até à gestão quotidiana assegurando que estas sessões ocorrem de forma descentralizada pelo concelho, em horários acessíveis, e que os contributos apresentados tenham uma resposta pública e fundamentada por parte do município.
      Compromisso 3.3 – Garantir a transparência e divulgação activa de todas as decisões, projetos e relatórios de monitorização em matéria de mobilidade recorrendo a linguagem acessível, plataformas digitais abertas de fácil consulta e sessões locais de esclarecimento nas freguesias afetadas.
    1. SEGURANÇA DOS MAIS VULNERÁVEIS | Visão Zero
      Pugnar pela Visão Zero – a ambição de zero mortes e feridos graves nas estradas – como princípio orientador da política de mobilidade, com especial proteção dos utilizadores vulneráveis (peões, ciclistas, crianças, idosos, pessoas com mobilidade reduzida).
      Compromisso 4.1 – Renovar e actualizar o Plano Municipal de Segurança
      Rodoviária
      com metas e indicadores ambiciosos com base num diagnóstico
      científico e mapeamento detalhado da sinistralidade para perceber de forma clara
      onde e porquê ocorrem os acidentes no concelho.
      Compromisso 4.2 – Implementar medidas físicas e de gestão para acalmar o
      tráfego
      em zonas residenciais, centros urbanos e áreas com elevada presença de
      utilizadores vulneráveis, designadamente, envolvente de escolas e equipamentos
      públicos de saúde, educação ou lazer, privilegiando a seguinte hierarquia:
    1. Redução do volume de tráfego motorizado;
    2. Redução da velocidade;
    3. Tratamento seguro das interseções;
    4. Redistribuição do espaço viário para passeios mais largos e vias cicláveis.

    Compromisso 4.3 – Adotar progressivamente o limite de 30 km/h como velocidade máxima em vias urbanas, em linha com as recomendações da ONU, definindo um calendário prioritário para as ruas residenciais, centralidades comerciais, envolventes de escolas e áreas de lazer, bem como zonas de coexistência.
    Compromisso 4.4Requalificação e Manutenção das Vias como Garantia de Segurança e Eficiência assegurando a manutenção e reparação célere das vias rodoviárias, priorizando a utilização de materiais de pavimentação mais duradouros e ecologicamente sustentáveis.
    Lançar um plano urgente e continuado de auditoria e reparação dos diversos pavimentos de utilização pública, degradados, existentes no concelho.
    O mau estado das estradas e os buracos na via pública promovem desvios repentinos de automóveis que põem em risco imediato peões e ciclistas, além de causarem quedas graves em modos de duas rodas (motas e bicicletas).
    Adicionalmente, a manutenção da qualidade dos pisos é indispensável para evitar o desgaste precoce nas frotas de transporte público — como a Carris Metropolitana — e viabilizar o cumprimento dos seus horários, salvaguardando o serviço público a prestar às populações.
    Compromisso 4.5 – Garantir o controlo, limpeza e desbaste regular de vegetação infestante e arbustos em bermas de estradas, separadores de vias, passeios e ciclovias, assegurando a desobstrução física das vias e a total visibilidade dos utilizadores para prevenir acidentes com peões, ciclistas, utilizadores de trotinetes e veículos motorizados.

    1. ESCOLAS SEGURAS — Entornos Escolares Protegidos
      Limitar o tráfego de atravessamento e reduzir as velocidades nas ruas em redor das escolas (num raio de 300 metros), criando entornos mais seguros, menos poluídos e promotores da mobilidade ativa.
      Compromisso 5.1 – Criar acessos pedonais e cicláveis seguros e contínuos junto a todas as escolas do concelho. Note-se que o sistema de Pedibus (acompanhamento pedonal em grupo), já é usado em vários municípios com sucesso, nomeadamente Oeiras, Mafra ou Braga, ligando as zonas residenciais diretamente às escolas.
      Compromisso 5.2 – Implementar ruas escolares (permanentes ou temporárias) nas proximidades das escolas, com restrição ou condicionamento do tráfego automóvel nos horários de entrada e saída.
      Compromisso 5.3 – Melhorar a sinalização das zonas escolares e implementar medidas de acalmia de tráfego (lombas, elevações de passadeiras, estreitamentos de via), assegurando-se que, tendencialmente, as passadeiras na envolvente escolar são sobrelevadas ao nível do passeio, iluminadas, totalmente acessíveis e, em locais mais críticos, equipadas com sistemas ativos de controlo de velocidade.
      Compromisso 5.4 – Implementar planos de mobilidade escolar (PME) participados, com incentivos à deslocação ativa e à utilização de transportes públicos e modos de deslocação suaves sempre que possível.
    1. HUMANIZAÇÃO DO ESPAÇO URBANO | Ruas para as pessoas
      Promover a requalificação do espaço público, privilegiando a mobilidade pedonal
      a permanência e o convívio social em detrimento do espaço destinado ao automóvel.
      Compromisso 6.1 – Garantir passeios e passadeiras amplos, acessíveis e seguros, eliminando obstáculos e estacionamento abusivo sobre os passeios recorrendo a soluções de desenho urbano dissuasor, aumento da arborização urbana e a uma fiscalização municipal ativa e contínua.
      Compromisso 6.2 – Continuar a criar praças, largos e espaços de estadia que promovam o uso do espaço público pela comunidade, considerando igualmente a reconversão progressiva de áreas anteriormente sob pressão de estacionamento ou circulação automóvel em zonas de lazer verdes, sombreadas e permeáveis.
      Compromisso 6.3 – Prosseguir a requalificação as áreas centrais e comerciais do concelho, priorizando o peão e a mobilidade ativa, garantindo a continuidade das redes pedonais para combater a actual fragmentação e assegurando ligações seguras e confortáveis entre as zonas residenciais e o comércio local, assim como no acesso às áreas de lazer e desporto.
    1. INCLUSÃO — Acessibilidade Universal
      Garantir condições de acesso universal a todas as infraestruturas e serviços de mobilidade, que não excluam pessoas com deficiência, mobilidade reduzida ou outras condições de vulnerabilidade.
      Compromisso 7.1 – Realizar um diagnóstico das condições de acessibilidade em todas as infraestruturas municipais e nos transportes públicos, elaborado de forma participativa, com o envolvimento direto de cidadãos com mobilidade reduzida e das associações que os representam, garantindo o mapeamento de barreiras físicas e sensoriais em todo o território municipal.
      Compromisso 7.2 – Elaborar e implementar um plano efectivo de eliminação de barreiras arquitetónicas, com prioridade para estabelecimentos de ensino, serviços de saúde, equipamentos públicos e interfaces de transporte, de forma a assegurar rotas pedonais contínuas entre as zonas residenciais e as principais interfaces de transporte, assim como com escolas, serviços de saúde e grandes equipamentos públicos, garantindo também os nivelamentos necessários em cada circunstância.
      Compromisso 7.3 – Assegurar que todos os novos projetos e obras públicas cumprem os princípios do desenho universal.
    1. MOBILIDADE EM BICICLETA — Pedalar com Segurança
      Implementar políticas, infraestruturas e equipamentos para incentivar a mobilidade em bicicleta, com especial atenção à comunidade escolar, às deslocações casa-trabalho e à interligação com transportes públicos.
      Compromisso 8.1 – Implementar uma rede ciclável coerente, abrangente e contínua que ligue as freguesias à cidade, que una as duas cidades e os principais polos geradores de mobilidade.
      Compromisso 8.2 – Criar parques de bicicletas seguros e cobertos (biciclários) junto a escolas, interfaces de transportes públicos, equipamentos desportivos e culturais, e outros equipamentos públicos, equipados com tomadas de carregamento para bicicletas elétricas.
      Compromisso 8.3 – Implementar um sistema de bicicletas partilhadas no concelho, integrado com a rede de transportes públicos, assegurando uma distribuição equitativa das estações pelas diferentes freguesias.
      Compromisso 8.4 – Criar incentivos à compra e utilização de bicicletas, nomeadamente para a comunidade escolar, associados do movimento associativo e para trabalhadores do município (Câmara Municipal, empresas municipais, etc.).
      Compromisso 8.5 – Estabelecer um programa de apoio ao movimento associativo concelhio para a criação de núcleos de cicloturismo e utilizadores de bicicleta, podendo ser delegado o desenvolvimento de ações formativas de condução urbana segura para novos utilizadores.
    1. TRANSPORTES PÚBLICOS | Cobertura, Qualidade e Acessibilidade
      Melhorar o transporte público, assegurando cobertura geográfica, qualidade do serviço e integração com os modos ativos.
      Compromisso 9.1 – Assegurar a cobertura geográfica do transporte público a todas as freguesias do concelho, com horários adequados às necessidades das populações.
      Compromisso 9.2 – Garantir a integração física e tarifária entre a rede de transportes públicos e os sistemas de mobilidade partilhada (bicicletas, trotinetes), apontando para que os passes sociais metropolitanos proporcionem acesso gratuito ou bonificado a estes sistemas.
      Compromisso 9.3 — Melhorar a qualidade e conforto dos transportes públicos, incluindo a renovação das frotas para modos de propulsão mais amigos da saúde e do ambiente, a acessibilidade universal e a informação ao utente, requerendo-se uma calendarização em ordem à descarbonização das frotas.
    1. DESINCENTIVO AO AUTOMÓVEL | Promover Alternativas
      Desincentivar as deslocações em automóvel, sempre acompanhado de medidas de incentivo aos modos ativos e ao transporte público.
      Compromisso 10.1 – Reestruturar a rede viária de forma a dissuadir o tráfego de atravessamento em áreas urbanas e zonas residenciais, criando alternativas pedonais, cicláveis e de transporte público.
      Compromisso 10.2 – Implementar políticas de estacionamento que desincentivem a utilização do automóvel em centros urbanos, com tarifação adequada e alternativas externas aos espaços urbanos, evitando a impermeabilização absoluta dos solos, e regulamentando de forma estrita, limitando, o uso de território para frotas comerciais, empresas de rent-a-car, stands de venda e parques de veículos em fim de vida que ocupam hoje extensivamente o solo do concelho.
      Compromisso 10.3 – Criar zonas de emissões reduzidas (ZER) nas áreas mais sensíveis do concelho, com restrições à circulação de veículos mais poluentes, definindo um calendário progressivo e transparente que dê tempo de adaptação aos cidadãos e seja acompanhado pela oferta de transportes públicos.
      Compromisso 10.4 – Promover planos de mobilidade para empresas e instituições públicas, incentivando a deslocação em modos ativos e transportes públicos, aproveitando para definir metas concretas de redução de emissões para as frotas municipais.
      Compromisso 10.5Logística urbana e transporte de mercadorias: Proceder a uma gestão adequada da carga e descarga, mitigando o impacto dos veículos pesados, procedendo à criação de zonas de estacionamento para veículos comerciais e a promoção de entregas em modos suaves (bicicletas de carga, veículos elétricos), nas zonas históricas e centrais das vilas e cidades que devem ser libertas do tráfego convencional rapidamente.

    Em suma
    O presente manifesto é uma proposta para um compromisso coletivo com a construção de um concelho mais saudável, seguro, inclusivo e sustentável. As medidas aqui propostas estão alinhadas com:

    • Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030;
    • Os princípios do Programa Cidades Saudáveis da Organização Mundial de Saúde;

    A segunda revisão do Plano Diretor Municipal de Loures, pelo que pode significar de promoção de uma evolução cultural, cívica, sanitária, económica, social e ambiental do Concelho de Loures, terá de apontar aos objectivos primordiais do Desenvolvimento Humano e tem, por isso, de integrar a visão e as políticas que, de facto, dão prioridade às pessoas. A Mobilidade Sustentável é uma delas.

    Parecer ADAL sobre o Programa Setorial das Zonas de Aceleração da Implantação de Energias Renováveis (PSZAER)

    Linha de Defesa – Associação de Defesa do Ambiente de Loures (ADAL), opõe-se energicamente à visão subjacente e, por isso, rejeita convictamente o Programa Setorial das Zonas de Aceleração da Implantação de Energias Renováveis (PSZAER) nos seus actuais contornos, porque não oferece as garantias exigíveis de proteção do território, das comunidades locais e da participação democrática.

    A proposta não impede a concentração excessiva de projetos em determinadas regiões, nem garante a avaliação dos efeitos cumulativos de várias centrais e respetivas infraestruturas associadas, incluindo linhas de muito alta tensão.

    O processo tende a proporcionar a aceleração de licenciamentos sem assegurar que as populações diretamente afetadas mantenham uma participação efetiva e com peso real nas decisões futuras.

    O planeamento energético deve assegurar previamente uma avaliação técnica, social e política da capacidade de carga do território, da proteção da paisagem, da biodiversidade, dos solos agrícolas e florestais e da qualidade de vida das populações.

    O planeamento energético não pode ter como principal orientação interesses económicos que não acautelam a vida das populações, o desenvolvimento humano e a preservação ecológica.

    O PSZAER tem de ser revisto de modo a que:
    – Estabeleça critérios objetivos e vinculativos para limitar a concentração territorial de projetos
    – Proceda a avaliação obrigatória dos impactes cumulativos de projetos e infraestruturas associadas;
    – Integre explicitamente as linhas elétricas e restantes infraestruturas na avaliação;
    – Aponte a uma prioridade real para soluções descentralizadas, autoconsumo, comunidades de energia e aproveitamento prioritário de áreas já artificializadas;
    – Garanta, sem equívocos, a participação pública efetiva nas fases posteriores de concretização do Plano;

    – Seja alterado o critério de exclusão relativo às “Áreas com ocupação do solo com valor específico”, incluindo o pinheiro-bravo, as vinhas, os pomares, os olivais e as hortas biológicas, como critérios de exclusão;
    – Os corredores ecológicos dos Programas Regionais de Ordenamento Florestal (PROF) voltem a ser incluídos como critérios de exclusão de áreas.
    – Seja anulada a alteração dos 50m de buffer de proteção na orla de zonas húmidas para 500m.

    – Sejam mantidos como critério de exclusão espacial as áreas classificadas como Geoparques-UNESCO, que legalmente fazem parte da rede nacional de áreas classificadas e que contraria as “orientações” do ministério que quer implementar as PSZAER fora de áreas classificadas.

    Uma transição energética justa tem de ser orientada para as pessoas e para o seu bem-estar, a mitigação das alterações climáticas e a preservação da biodiversidade. Outras opções e caminhos, exigem rejeição liminar.

    SOLIDARIEDADE COM CUBA

    A ADAL juntou-se à campanha de solidariedade com o povo cubano, apelando à participação de todos os cidadãos, associações, coletividades e entidades que se queiram associar a esta iniciativa de apoio humanitário.

    Cuba continua a enfrentar sérias dificuldades no acesso a bens essenciais, agravadas pelas consequências do bloqueio económico, comercial e financeiro imposto pelos Estados Unidos da América, que há mais de 60 anos afeta o desenvolvimento do país e as condições de vida da sua população.

    Num momento em que se fazem sentir carências significativas em diversos setores, a solidariedade internacional assume uma importância acrescida. É neste contexto que a ADAL se associa à solidariedade de muitos portugueses com uma recolha de materiais destinados a apoiar o povo cubano, contribuindo para minimizar algumas das dificuldades mais sentidas no quotidiano.

    Apelamos à doação de:

    • Medicamentos e material de primeiros socorros;
    • Material escolar (cadernos, lápis, canetas, borrachas e outros artigos educativos);
    • Produtos de higiene pessoal (sabonetes, pasta e escovas de dentes, champô, pensos higiénicos, fraldas e outros bens essenciais);
    • Outros materiais de reconhecida utilidade social (não estando incluídas roupas pela diferença climática conhecida)

    Em alternativa, pode ser efetuada uma transferência através do IBAN: PT50 033 0000 0058 0164 1169 7 e enviado o seu comprovativo para a Associação Amizade Portugal – Cuba, através do e-mail aapcuba@gmail.com

    A solidariedade entre os povos é uma expressão concreta da fraternidade, da cooperação e da luta comum por um mundo mais justo. Num momento em que o povo cubano enfrenta dificuldades promovidas por décadas de bloqueio económico, cada contributo representa um gesto de apoio, resistência e compromisso com os valores da paz, da soberania e da justiça social.

    A ADAL reafirma igualmente a sua solidariedade com o povo cubano e a sua luta pelo fim do bloqueio económico, comercial e financeiro, medida amplamente condenada pela comunidade internacional e que continua a penalizar injustamente a população cubana.

    Convidamos todos os que a participar nesta campanha e a divulgar esta iniciativa junto de familiares, amigos, colegas e vizinhos.

    Perante o bloqueio e as dificuldades, respondemos com solidariedade.

    Ao lado de Cuba, na defesa da soberania, da paz e da justiça social.

    Para mais informações sobre a entrega dos donativos, contacte a ADAL, através de adaloures@gmail.com, ou envie mensagem para o +351 928 324 269.

    Inteligência Artificial : como pode a IA minar a ação climática ?

    por Ana Sofia Cabeleira, Membro da Comissão Executiva do PEV

    Já não a estranhamos, ou talvez sim. É bem evidente que a comunicação vem, nos últimos tempos, perdendo autenticidade pelo facilitismo com que a inteligência artificial (IA) se entranha nas mais variadas áreas com a pretensão de substituir tarefas intelectuais. Da publicidade às artes, da educação ao jornalismo, dos serviços à comunicação institucional.

    Importa por isso refletir sobre o peso da uniformização da imagem e da linguagem – pese embora o reconhecimento generalizado sobre o cariz inovador da IA – considerando que é simplista a criação de conteúdos amplamente partilhados no mundo digital, arcaicamente mimetizados em milhares de publicações a que não são alheias falhas, imprecisões e até uma marca gráfica que vamos aprendendo a identificar. Um conteúdo que nos é imposto sob o desígnio dos ímpetos do algoritmo, a um ritmo vertiginoso, como um manto imenso e opaco prestes a cobrir todo o processo inventivo, como se, sob o comando do novo e brilhante intelecto, ficássemos agora dispensados de pensar, criar e evoluir. E quando se opta por comunicar valores democráticos e mensagens políticas partindo desta imensa fragilidade é a própria liberdade democrática que corre o risco de corromper.

    Apesar de se apresentar como uma ferramenta acessível e de grande aplicação, o recurso à IA não tem de ser uma sentença para a humanidade nem para o humanismo. É uma opção.
    A IA é, porém, um risco para ambos, se teimarmos em ignorar o preço demasiado elevado para o planeta e os seus recursos, e consequentemente para a integridade individual, a força do trabalho, a dignidade e qualidade de vida de quem deles depende. E não dependeremos todos nós: um trilionário e todos os demais?

    Apesar de recente, esta tecnologia já surtiu um falhanço monumental. A proliferação de mega centros de dados veio a revelar enormes fragilidades no sistema energético dos EUA, cujas big-tech lidam com o fim do sonho da supremacia da IA, à medida que colapsam as infraestruturas elétricas face à insustentabilidade da exigência de consumos dos servidores e sistemas de armazenamento. Neste contexto não será pois de estranhar que a população norte-americana esteja a pagar cara esta fatura: os preços da eletricidade subiram 76% na maior rede elétrica do país operada pela PJM, e isto se somam custos e riscos face a apagões.

    Para melhor se perceber a dimensão destes impactos, importa referir que um centro de dados consome, em média, tanta eletricidade como 100 mil casas. Contudo as mais recentes infraestruturas exigirão 20 vezes mais energia, o que é insustentável.

    Portugal e Espanha estão por este motivo na mira dos investidores, quando tudo se resume a números. De acordo com o estudo da consultora McKinsey, a Península Ibérica está posicionada na linha da frente para liderar a computação de hiperescala, equivalente a 500 mil milhões de euros por ano até 2030.

    Como empurrar os impactos para o sul da Europa, e a que custo? O mote: renováveis.
    O estudo aponta para a necessidade da Europa triplicar a sua capacidade de computação até 2030 e para tal a energia é um fator crítico. A península ibérica, considerados os excedentes de energia renovável, por um lado, e por outro os valores da eletricidade industrial em Portugal (abaixo da média europeia), surge como o alvo para a instalação dos novos projetos de computação de grande escala. Mas como ignorar a fragilidade do nosso sistema energético perante o apagão que afetou a península ibérica, precisamente no momento em que operava com uma quota muito elevada de fontes renováveis (superior a 75-80%)?

    Por outro lado, Portugal está na mira da IA por poder ser a porta de entrada, através da ligação a Sines, e a empresas como a gigante “verde” Start Campus, ligando a Europa à América do Sul, através dos grandes cabos submarinos internacionais de alta capacidade.

    “Todos estes dados devem preocupar-nos, independentemente
    da localização geográfica destes megaprojectos.
    Falamos de impactos globais que constituem um enorme
    travão na necessária engrenagem pela ação e defesa climáticas. “

    Estes mega projetos serão certamente vendidos em nome da “energia verde” e da “sustentabilidade assente em renováveis”, quiçá invocando o “superior interesse público” que invariavelmente faz prosperar o interesse privado a custo da alienação do bem público (quase sempre monopolizando recursos naturais como a água, e de que este caso não é exceção).

    Os impactos dos centros de dados e do rápido crescimento da IA não são apenas sobre os níveis de emissões de gases com efeitos de estufa ou sobre as ondas de calor que provocam num raio de a 10 km do seu local de implantação. É essencial aferir os impactos diretos na terra, na água e no clima, considerando todas as cadeias de suprimentos, incluindo “centros de dados, chips, geração de eletricidade, sistemas de refrigeração, captação de água, ocupação do solo, minerais críticos e resíduos eletrónicos” imensuráveis, como alerta um relatório da ONU.

    A nível global, a emissão de carbono associada ao aumento do consumo de eletricidade pelos centros de dados corresponde, em média, a 399 milhões de toneladas de CO2, exigindo 6,7 biliões de árvores para ser compensada. Em 2030, é estimado que o consumo de água associado aos centros de dados venha corresponder ao equivalente do consumo anual de 1,3 mil milhões de habitantes. Entre 2025 e 2050, a produção elétrica mundial deverá por este motivo, aumentar em 85%, sendo que em 2050 a IA deverá consumir 8% do total da energia produzida a nível global.

    Se acrescentarmos que as criptomoedas, com cada vez maior utilização a nível mundial, e que requerem igualmente astronómicas quantidades de eletricidade para serem geradas de forma segura, estamos de facto perante o problema global de grande escala.

    Todos estes dados devem preocupar-nos, independentemente da localização geográfica destes megaprojectos. Falamos de impactos globais que constituem um enorme travão na necessária engrenagem pela ação e defesa climáticas. Por isso, enquanto ecologistas, é nosso dever pugnar pela transparência sobre os impactos socioambientais da IA, dos consumos, produção e segurança energéticas, a efetiva avaliação do real consumo de água, o impacto sobre o clima e o solo, os riscos associados ao crescente problema associado à deposição e descarte de lixo eletrónico mas também a cibersegurança. Ao tomarmos decisões políticas que visam concentrar uma enorme riqueza do lado das grandes corporações, não é difícil prever o desinvestimento em toda a linha dos serviços públicos e nos seus recursos humanos. À medida que a IA substitui procedimentos e postos de trabalho, não podemos esperar senão o agravar da precariedade laboral e intelectual.

    A IA não é neutra. Ignorar os seus riscos presentes e para o futuro é arriscar um salto no abismo perante uma infraestrutura de poder que se apresenta sorrateira nas nossas vidas sem que nos tivéssemos munido alguma vez, e até hoje, de mecanismos democráticos capazes de a travar quando, ou agora que, é ténue a fronteira entre o que vem para nos servir e o que impõe o nosso servilismo.

    (Os artigos de Opinião aqui publicados  são da responsabilidade dos seus autores e podem não reflectir as posições da ADAL).