A PONTE-SIFÃO DO ALVIELA EM SACAVÉM

OPINIÃO de Mário Rui Silvestre

(Os artigos de Opinião aqui publicados  são da responsabilidade dos seus autores e podem não reflectir as posições da ADAL).

«Chegou alfim o Alviella!», é com este alfim, termo já arcaico em 1880, que Gervásio Lobato, ilustre director da revista Occidente ebom escritor de Lisboa em Camisa (1882), e doutros livros célebres daquele tempo e ainda hoje, anuncia no nº 68 daquela prestigiosa revista a chegada da água do rio Alviela a Lisboa, no dia 3 de outubro desse ano, através do mais extenso aqueduto da Península à época (114 kms), dos contrafortes da Serra d´Aire e nascente nos Olhos d´Água, até à Estação a vapor instalada na cerca dos Barbadinhos, a Santa Apolónia, na Capital. Naquele suave e tépido dia de outono, já com as folhas caídas dos plátanos a dourar os caminhos e jardins de Lisboa, no recinto engalanado de bandeiras e pavilhões de lona daquela Estação (hoje um dos núcleos do Museu da Água), conversavam, com animada expectativa, o rei D. Luís, o arcebispo de Mitilene, o príncipe de Gales e mais de um milhar de convidados, ministros e fidalgos principais da Corte, além de muitos jornalistas, grande parte da facção republicana, partido que se oficializara quatro meses antes, aproveitando as festas do terceiro centenário da morte de Camões, igualmente republicanizado, com a inauguração daquela grandiosa estátua do vate, de vários metros de altura (a estátua, é claro), algo inédito mesmo para o maior vulto da cultura lusa, acolitado doutros ilustres poetas e figuras gradas, o qual monumento ainda hoje quem quiser poderá ver. A chegada do Alviela a Lisboa era assim o terceiro grande evento deste ano de 1880 e, sem demérito para o genial autor de Os Lusíadas, a mais propalada notícia, em jornais, livros e revistas, desde há uma década a esta parte, quando começaram os trabalhos da trasladação por aqueduto das dele, gárrulas e transparentes águas, consoante trovara sobre este admirável afluente do Tejo, um século antes, outro grande poeta nacional, Bocage, nada menos, num apaixonado Idílio dedicado a uma das suas ingratas Arselinas, a qual vivia perto do Alviela e trocara o desventurado poeta por um trafulha qualquer, coisa de que já outros vates, desde Homero, se andavam queixando. Peço desculpa benigno leitor(a) pelo circunlóquio. Revertemos então ao ponto. Ou à ponte. À Ponte-Sifão do Alviela em Sacavém e à sua dela nada despiciente história, alguma desventura, magnitude, interesse arqueológico, utilidade secular e, vá lá, poesia.

Antes, vejamos como decorreu este bródio real do notável evento que foi a chegada do Alviela à  cidade dos Jerónimos, pela escrita irónica do dramaturgo de O Comissário da Polícia (1890), num estilo de consoantes dobradas, aristocráticas, conforme as regras gramaticais daquele tempo, o que mesmo para um republicano como Gervásio Lobato, não o incomodaria muito como incomodou os revisores da ortografia nacional (ainda hoje em bolandas), durante a República, a qual República já neste irónico texto do director de o Occidente, se pressentia que não tardava. Leia-se.

Chegou alfim o Alviella e, com a breca!, se o alfim não se emprega n´estes momentos solemnes quando é que se há de empregar. Foi uma festa brilhantíssima. Alviellas não chegam ahi todos os dias como saccas d´assucar ou faluas carregadas de castanhas. A Companhia das Águas de Lisboa ( C.A.L., antecessora da moderna E.P.A.L responsável por este projecto- nota do autor ), tinha-lhe preparado os seus aposentos na cêrca dos Barbadinhos com todo o luxo e comodidade, e o Alviella teve a honra que só foi dada ao Príncipe de Galles de ser esperado pelo rei, pelo ministério e por todas as altas personagens do país. O Alviela teve ainda mais o prazer de encontrar à sua chegada o Sr. Arcebispo de Mytelene, e a sua côrte sacra, prazer a que se poupou o Príncipe de Galles na sua qualidade de protestante. O Sr. Arcebispo esperou o rio à porta do reservatório e mal elle entrou choveu-lhe um hyssope enfrascado em água-benta, processo homoepathico que deve ter espantado muito o bom do rio e podia tê-lo constipado.

Esta irónica e encriptada descrição de Gervásio Lobato alude a uma gafe que sucedera, antes da chegada do Alviela, com o Arcebispo de Mitilene o qual recusara apertar a mão ao Príncipe protestante ( Não aperto a mão a hereges!), o que levou este a apartar-se do local onde o Arcebispo borrifou a água vulgar e transparente do Alviela com água-benta, diferente daqueloutra, terá pensado o Príncipe, por, além do oxigénio e hidrogénio, integrar mais um elemento: a fé. Não obstante, continua o ilustre articulista: O lunch foi abundantíssimo e delicado. A água do Alviella, pelo que vimos – uma água com grandes virtudes medicinaes -, abre extraordinariamente o apetite. O serviço foi magnífico, o que não é muito vulgar num buffete onde luncharam mil e duzentas pessoas etc. Na cabeça do pavilhão estava a mesa real, servindo também de cabeça ao grande buffete armado no resto da barraca. Assim devia forçosamente de ser dentro do organismo constitucional. A mesa real era mais elevada, tanto carpinteiramente como gastronomicamente falando. Nela comia-se sentado, nas restantes em pé, naquela a dois metros do chão, nestas a um, naquela devorava-se pavão, nas outras peru. E por aí fora, intercalando na veracidade dos acontecimentos- sabe-se por outras fontes- pequenos e jocosos alfinetes, ao modo das famosas Farpas de Ramalho Ortigão, onde abundam irónicas notícias sobre o Alviela; nos livros e polémicas dos maiores escritores portugueses da época e de sempre, Eça, Camilo etc; nas caricaturas de Rafael Bordalo Pinheiro (p.ex. o personagem do Zé Povinho foi antecedida da caricatura do Alviela antropomorfizado num aguadeiro de bilha ao ombro etc.), as quais notícias, crónicas e caricaturas, desde há uma década, vinham fazendo deste rio, em jornais, livros e revistas, satirizando os atrasos nas obras para trazer o Alviela a Lisboa; falta de higiene dos lisboetas; pouca salubridade, doenças etc., junto a alguma ficção literária associada, o leitmotiv principal de artistas, escritores e jornalistas daquele tempo. Neste contexto, o Aqueduto do Alviela tornou-se, para os republicanos em especial, o verdadeiro Aqueduto das Águas Livres, que o anterior, monárquico e já impotente para abastecer a Capital e arredores, nunca chegara a ser, metidas as águas dele em vinte quilómetros de canos, com os súbditos afogados em impostos, real d´água, décimas, laudémios, foros etc. pagos às classes dominantes.

A primeira notícia na imprensa sobre a Ponte-Sifão do Alviela seria dada, sob pseudónimo (J.B.), no nº 69 da revista Occidente-1880, por Carlos Ribeiro, o conhecido arqueólogo e pai da Geologia em Portugal, o qual foi quem primeiro descobriu este enorme manancial hídrico, dos mais pródigiosos do país e apenas agora começado a explorar, em espeleologia subaquática, numa profundidade de 300 mts e dezenas de quilómetros de extensão no interior da Serra d´Aire e Candeeiros. Confira-se:

Não podemos passar em silêncio a obra mais considerável do Canal do Alviela que é a Ponte-Sifão de Sacavém (830 mts) etc.. Este número incluía também as estruturas subterrâneas, da, ao tempo,  mais extensa, elegante, e útil obra deste género (permitia a passagem a peões), enquadrando uma notável paisagem arquitectural de casas, igreja, e vida piscatória do rio Trancão, mostrada em bilhetes-postais turísticos, revistas e jornais, fora e dentro do país, constituindo o ex-libris da antiga e laboriosa vila onde se insere. Até que.

Até que aconteceu em 1940 a Grande Exposição do Mundo Português, aproveitada pelo regime de Salazar, para mostrar, a um mundo em guerra, que Portugal era uma nação grande, d´aquém e além-mar em África e mais além. Por isso, para enaltecer a Pátria e os seus altos valores, cujo centenário aquela grande exposição celebrava, o Engº Duarte Pacheco, o genial e trágico ministro das Obras Públicas de Salazar, que vinha prestando uma atenção particular ao abastecimento de água à Capital do império, entendeu retirar ao Alviela, um simples afluente do Tejo, a Ponte Sifão de Sacavém, para a dar ao grande rio, donde haviam partido as caravelas e aqueles heróis que iam nelas, celebradas com o ínclito Infante no célebre Padrão dos Descobrimentos, feito nesta altura de ardor patriótico, demonstrando que também nas obras públicas os mesquinhos de que já falara Fernão Lopes contavam pouco. A placa que o Estado-Novo lá mandou colocar ainda se pode ver e ler, contando parte desta história mas omitindo que o Alviela, cujo ali passava, passou a passar (passe também o pleonasmo), por debaixo do rio Trancão, também afluente do Tejo, com o qual rio a futura poluição industrial o haveria de irmanar daí a poucas décadas, sendo a memória destes dois rios históricos e mártires, ainda hoje, paradigmas da luta ambiental neste país ( a C.L.A.P.A Comissão de Luta Anti-Poluição do Alviela, activa desde 1957 mas apenas oficializada depois do 25 de Abril de 1974, não se sabe porquê, fundada pelo célebre e grande antifascista, Joaquim Jorge Duarte, o Diabo, foi uma das primeiras senão a primeira e popular associação ambientalista de Portugal) num mundo, hoje, mais do que nunca, a precisar de novo modelo de desenvolvimento e exemplos de luta semelhantes aos travados pelos povos do Alviela e Trancão, irmanados, com o que simbolizam, na Ponte Sifão de Sacavém. Só mais duas coisas para terminar.

A pintura que encabeça este artigo mostra esta Ponte-Sifão (1940) depois das obras do Estado Novo para a integrarem, como reza a tal placa, na grandiosidade de Portugal a qual a Grande Exposição de Belém já estava a ser o maior arauto naquele ano. O autor, hoje de certo modo ignorado, foi Arnaldo Ressano, director da SNBA, Sociedade Nacional de Belas Artes, bom pintor e caricaturista de mérito (no Sempre Fixe etc), além de pedagogo de uma arte pura e figurativa não degenerada, antes enaltecedora das colónias portugueses e seus motivos, muito menos pactuando com estilizações de mau gosto, como estava a fazer o Secretariado de Propaganda Nacional e o seu guru António Ferro através de artistas que haviam sido companheiros dele no ORPHEU, Almada Negreiros e afins, cujos vinham abarbatando a maior parte das pinturas, escultura e arquitectura, do regime, além dos trabalhos daquela grande Exposição, através de conceitos artisticos que repugnavam Arnaldo Ressano e os amigos deste. Não cabe aqui fazer a história dessa luta estética dentro do Estado Novo porém a mesma ajuda a explicar o que se passou naquele ano de 1940 com a mudança da Ponte Sifão do Alviela para ponte do Tejo, adornada com dois colossais aguadeiros de sete metros de altura, com traços africanos ainda por cima, um de cada lado dos arcos da ponte, assentes em grandiosas peanhas, da autoria do escultor Maximiano Alves, amigo de Arnaldo Ressano, que vinham provar aos tais da arte estilizada, não figurativa e àqueles que se riam dizendo que os portugueses só fazem bem Torres de Belém, pequeninas etc. que quem devia ter preparado a grande Exposição do Mundo Português era a gente do SNBA, liderado por Arnaldo Ressano e correlatos. Foi aqui que Ressano tentou provar pela pintura o que Maximiano Alves já provara com os aguadeiros. Foi à nascente do Alviela e dali até a esta Ponte Sifão de Sacavém, sacou dos pincéis de académico sem espinhas modernistas e pintou num hiper realismo notável, não apenas a nascente, mas aquedutos, sifões, túneis, e tudo o mais que encontrou p´lo caminho dos dois aquedutos paralelos, do Tejo e do seu histórico afluente, mais a icónica ponte de ambos. Mesmo assim a coisa não lhe correu bem.

O mundo estava a mudar com a guerra. Salazar andava inquieto com o resultado da mesma que podia comprometer o regime caso os aliados e as democracias vencessem. Para mais, ali perto de Sacavém, Soeiro Pereira Gomes, Alves Redol e outros inauguravam o neo-realismo português com a saga dos avieiros do Tejo e a dos homens escravos que nunca foram meninos. Então, logo quando os mesquinhos apareciam pela primeira vez na literatura lusa como os heróis da fita, aqueles tipos da Ponte-Sifão de Sacavém, Maximiano Alves, Ressanos etc., não tiveram melhor ideia do que entronizar nela dois aguadeiros africanos com vários metros de altura que nem a estátua de Salazar sentado com as insígnias de lente coimbrão atingia? Não se sabe se foi por ordem do ditador, o certo é que dois anos volvidos os colossais aguadeiros foram retirados das peanhas por precaução e não virem no futuro a inspirar romancistas do realismo socialista, comunistas encapotados da cintura industrial de Lisboa, ou simples agitadores de ideias. Sobrou a cabeça de um, em boa hora guardado num armazém da EPAL, donatária desta ponte, a qual cabeça colossal, em 1998 aquando da requalificação do rio Trancão foi colocada, mais terra a terra, mas com igual dignidade, perto da Ponte-Sifão do Alviela em Sacavém.

Há dois anos, por alvitre da ADAL, e mais gente amiga do património, a EPAL, em boa hora procedeu ao restauro desta histórica, por muitos motivos, antigos e modernos, Ponte-Sifão do Alviela em Sacavém, entre os quais motivos a de ser legítima donatária desta ponte, por sucessora da C.A.L.- Companhia das Águas de Lisboa, a primitiva construtora do aqueduto onde a mesma se integra. Por essa altura do restauro andava no ar uma infeliz e perigosa ideia do anterior ministro do Ambiente deste país, cujo, dizia-se, queria aproveitar o não menos histórico restante Aqueduto do Alviela, e se calhar esta ponte, para um oleoduto. Até agora a forte oposição dos povos de Loures, Sacavém e outros, do longo percurso deste rio que Lisboa bebeu, obstou a tal desrespeito por quanto esta ponte antiga, ex-libris de Sacavém, significa, e os rios que uniu durante perto de um século e são o paradigma da luta que o mundo hoje, e a espécie humana, já está a travar se quiser ter hipóteses de sobrevivência a prazo. Donde o meu apoio, na qualidade de ex-presidente da CLAPA- Comissão de Luta Anti-Poluição do Alviela, à elevação da Ponte-Sifão de Sacavém a monumento nacional pelo significado antigo e moderno que representa; interesse arqueológico paralelo ao das máquinas que hoje se guardam no núcleo dos Barbadinhos do Museu da Água em Lisboa, onde chegava a água do Alviela à qual deu passagem durante quase um século, para sustento, saúde e salubridade da Capital portuguesa, dos povos em redor e daqueles que ainda hoje o abandonado Aqueduto do Alviela percorre, à espera que a EPAL, ou alguém, o transformem, muito melhor e mais limpo que num nojento oleoduto cheio de perigos para quem sofreu já tanto com a poluição,  talvez num moderno e ecológico percurso pedestre ou outro similar, de Lisboa à nascente na Serra d´Aire, com passagem por esta magnífica Ponte Sifão do Alviela em Sacavém, a qual, pela beleza, importância para a arqueologia industrial, significado no abastecimento de água a Lisboa e defesa do ambiente neste país, bem merecia ser representada num selo temático dos CTT, além de ter anexa um museu que conte todas estas histórias da história, do tempo que passou, da luta presente pela sustentabilidade da vida na Terra e respeito pela água, sem a qual água nenhuma vida é possível, aqui localmente onde se situa esta Ponte-Sifão de Sacavém, neste planeta ameaçado pelas alterações climáticas e secas extremas, e no cosmos incomensurável onde tudo começou.

Mário Rui Silvestre

( Súmula extraída do meu último livro O RIO QUE LISBOA BEBEU, O Alviela na história, letras e luta ambiental – edições Cosmos, 2022)

PARECER DA ADAL | Processo de consulta pública sobre o regime excepcional relativo à operação de aeronaves no Aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa

Linha de Defesa – Associação de Defesa do Ambiente e do Património de Loures / ADAL, manifesta o maior interesse em participar no processo de consulta pública sobre o regime excepcional relativo à operação de aeronaves no Aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa.

O Aeroporto Humberto Delgado situa-se na Portela de Sacavém, inserido na malha urbana da cidade de Lisboa, no seu limite Norte, ocupando também território do Município de Loures e gerando também impactos muito significativos em malhas urbanas e populações deste município, sobretudo nas zonas próximas da infraestrutura em causa.

Já hoje se constata o não cumprimento dos horários limite definidos para aterragem e descolagem de aviões no referido aeroporto; da eliminação de restrições aos voos noturnos no aeroporto Humberto Delgado resultará um agravamento dessa situação, num desrespeito grosseiro pela Lei e das regras em vigor, bem como pela qualidade de vida das populações.

Reforçam-se assim, no geral, as preocupações já expostas em parecer emitido em Março de 2018, no âmbito da discussão pública do Plano de Ações de Gestão e Redução de Ruído do Aeroporto Humberto Delgado.

Em nossa opinião, a actualização do sistema de controlo de tráfego, seja por razões de segurança operacional, seja por quaisquer outras razões, não pode pôr em causa a saúde e o bem-estar de quem reside nas proximidades do Aeroporto; aliás, tal intento consolidará e agravará uma má prática que há muito devia ter sido corrigida.

Assim, propomos:

  1. Que a necessidade de estabelecer um regime excepcional e temporário seja claramente fundamentada;
  2. Que sejam salvaguardados e anunciados claramente os limites/restrições temporais nocturnos para as operações de circulação aérea;
  3. Salvaguardar, por todos os meios que o regime excecional não possa vigorar depois da referida atualização do sistema de navegação aérea;
  4. Assegurar que Grupo de Trabalho para o Estudo e Avaliação do Tráfego Noturno no Aeroporto Humberto Delgado, cujas funções iniciaram em Novembro de 2020, conclua com celeridade o seu relatório, identificando as medidas necessárias para se acabar com os incumprimentos ao limite dos 91 voos noturnos semanais, analisando a possibilidade de se estabelecer um período noturno específico com restrições mais severas e apresentando medidas de layout e operacionais que contribuam para a redução do ruído. Caso tal relatório já esteja concluído, o mesmo deve ter a adequada divulgação;
  5. Acautelar que as Autarquias de Loures e Lisboa sejam envolvidas em todos os processos a que estejam associados impactos no quotidiano dos respectivos munícipes.

AMBIENTE em agenda – ADAL reúne com Câmara Municipal de Loures

No dia 11 de Agosto a ADAL reuniu com o Vereador do Departamento de Ambiente da Câmara Municipal de Loures. Entre os vários assuntos em agenda, o foco acabou por ser o Paul das Caniceiras e a evolução dos trabalhos para que seja classificada como Área Protegida. É comum o reconhecimento da importância destes trabalhos que ainda demorarão algum tempo a desenvolver, quer pelos estudos que se impõem, quer pelo processo de envolvimento dos proprietários de terrenos com actividade agrícola e agropecuária.

A ADAL realçou a dimensão da Educação e da Biodiversidade do projecto de preservação e valorização desta Zona Húmida. Referiu ter sempre defendido o envolvimento dos proprietários no processo, aproximando-os do mesmo e harmonizando funções e expectativas. Realçou ainda que a classificação como Área Protegida é o que melhor defenderá o Paul, clarificando as responsabilidades das entidades com responsabilidades na sua gestão.

Um outro assunto abordado foi o Centro de Tratamento de Resíduos Sólidos Urbanos da Valorsul em São João da Talha. Tendo em conta que o Estudo de Impacto Ambiental feito aquando da instalação desta Unidade de Incineração lhe atribuía 20 anos de vida e tendo já passado 23 anos, a ADAL questionou sobre as alternativas em equação, manifestando preocupação quanto à gestão dos resíduos, sobretudo quando se sabe que também o Aterro de Mato da Cruz está próximo do seu limite de vida.

Aproveitámos para alertar para o facto da Comissão de Acompanhamento Local do CTRSU da Valorsul não reunir desde 2018, ano em que se realizaram duas reuniões e em que a Comissão definiu que passaria a reunir duas vezes por ano.

O Vereador referiu que estão a ser estudadas alternativas para a localização das futuras infraestruturas e comprometeu-se a convocar uma reunião da Comissão de Acompanhamento Local no início do último trimestre deste ano.

Foram ainda abordados outros assuntos, que tomámos conhecimento estarem sob a alçada de outros vereadores, mas que não deixámos de considerar pela importância de que se revestem para uma gestão ambientalmente sustentável do território: situação dos moradores do Bairro de São Francisco, em Camarate, que há muito vêm denunciando os impactos ambientais da acitividade industrial desenvolvida na sua proximidade; deslocalização, para a Freguesia de Bucelas, dos contentores do Parque de Contentores da Bobadela; eventual utilização do Canal do Alviela como oleoduto; alterações ao loteamento no Bairro da Petrogal.

Por fim, a ADAL partilhou algumas informações sobre a sua actividade mais recente, designadamente a participação no processo de consulta pública sobre o regime excepcional relativo à operação de aeronaves no Aeroporto Humberto Delgado, e, em geral, a que decorre do projecto Eco-Alerta. Deu ainda a conhecer que pretendia pedir uma reunião com responsáveis pelo Reactor Nuclear Experimental da Bobadela, a fim de conhecer as perspectivas que se apontam para esta infraestrutura, designadamente no domínio da investigação na área da saúde.

Recursos hídricos em Loures | O SILÊNCIO DOS RESPONSÁVEIS – Posição Pública

No final de 2021 a ADAL tornou pública a sua causa LRS Águas Mil, realçando a importância da bacia hidrográfica do rio Trancão, sub-bacia do rio Tejo, e apontando a urgência das medidas de protecção das águas superficiais interiores, de transição, costeiras e subterrâneas.No início deste ano solicitámos informações à Agência Portuguesa do Ambiente/APA, aos Serviços Intermunicipais de Águas e Resíduos de Loures e Odivelas/SIMAR e à Câmara Municipal de Loures, sobre diversos aspectos relacionados com a gestão das águas superficiais e subterrâneas e da água em meio urbano.

Até à data apenas a Câmara Municipal de Loures, através do seu Departamento do Ambiente, nos enviou os esclarecimentos solicitados (estando em falta apenas uma informação, a fornecer pelo Departamento de Gestão Urbanística – áreas, por freguesia, que receberam licenciamento municipal para impermeabilização do solo, desde a entrada em vigor do actual PDM).

A informação solicitada à APA e aos SIMAR é essencial para um melhor conhecimento da situação no nosso território. Contudo, passados seis meses, ainda não foi disponibilizada.

INFORMAÇÃO SOLICITADA À APA:

– Actual qualidade da água do rio Trancão, em especial em Sacavém/foz do rio.

– Através de que meios e com que periodicidade é verificada a qualidade das águas da bacia hidrográfica do concelho de Loures.

– Total de captações de água subterrânea autorizadas no concelho de Loures nos últimos dois anos; quantas dessas autorizações são de regularização de explorações antigas e quantas são novas explorações.

INFORMAÇÃO SOLICITADA AOS SIMAR:

– Quantidade de água das ETAR do Concelho a ser aproveitada para usos não nobres (por função).

– Iniciativas em curso para redução de perdas de água na rede de distribuição de água potável. Investimento afecto a esse objectivo e qual a evolução das perdas de água na rede nos últimos 8 anos.

– Rumo tarifário que os SIMAR pensam adoptar para induzir a redução do consumo e, sobretudo, do desperdício de água potável.

A Lei das Organizações Não Governamentais de Ambiente, Lei 35/98, de 18 de julho, estabelece claramente os direitos de Acesso à Informação (Art.º 5º) e à participação (Art.º 6º). Tais princípios constituem, no nosso entender, os pressupostos para cumprirmos com o nosso dever de colaborar na promoção da protecção e valorização do ambiente.

Tendo em conta o tempo decorrido, o silêncio destas entidades só pode conduzir-nos a duas conclusões: por um lado, a possibilidade, que não queremos equacionar por demasiado preocupante, do “trabalho de casa” não estar a ser feito por quem compete fazê-lo; por outro lado, uma desconcertante falta de respeito pela Lei e pelas relações institucionais que se desejam próximas e transparentes.

Lê-se no site da APA: “As ONGA desempenham um papel fundamental e relevante no domínio da promoção, proteção, sensibilização e valorização do ambiente, desenvolvendo uma ação de interesse público.” (https://apambiente.pt/index.php/apa/organizacoes-nao-governamentais-de-ambiente)

O que a ADAL espera da APA e dos SIMAR é o cumprimento da Lei e o respeito básico pelo direito à Informação e à Participação, numa relação construtiva, pelo interesse público!